Caricaturas da liberdade!

Em cima da linha Não sou um apreciador de caricaturas, mas possuo algumas de que gosto muito. Uma delas é a minha. Tenho algum gozo e prazer em mostrá-la, porque transmite com fidelidade a minha própria pessoa e, segundo alguns dizem, também a minha personalidade, embora eu não acredite muito nisso.

Creio que já estão a vislumbrar o alcance desta breve introdução. Já ouvi muita gente falar acerca das caricaturas de Maomé, já muitas opiniões foram dadas, e, já agora, não terei eu também o direito de dar a minha? Pois é isso que eu vou fazer, correndo o risco, como sempre, de estar ou entrar noutra onda.

S. Paulo não foi ouvido nem achado sobre o assunto, mas falou, aos Coríntios, sobre o respeito a ter para com os judeus, os gregos (pagãos) e os crentes em Jesus Cristo, e não falou dos islâmicos, porque ainda não existiam: (utilizo a tradução ecuménica da Bíblia) não ofendam a consciência nem dos judeus, nem dos pagãos, nem dos crentes em Cristo. (Domingo – 12 de Fevereiro).

Esta expressão de S. Paulo bem podia ser escrita nos jornais de todo o mundo!

Há hoje por aí uma mentalidade, dita democrática, que pretende impor a toda a gente, em nome dos valores da democracia e da liberdade, a sua ditadura ideológica, política, cultural, religiosa ou anti-religiosa. A sua ideia, os seus projectos e os seus ideais têm de se sobrepor a tudo e a todos. Não faltam por aí ditadores camuflados de libertadores, desde a política até à religião e ao desporto. Todos os dias nos cruzamos, pelo menos na Comunicação Social e na política, com esta gente para quem está tudo bem, desde que nós estejamos de acordo com eles!

Não quero com isto dizer que não haja necessidade de quem tenha e desenvolva ideias diferentes das nossas. Isso é saudável! O que não é saudável é querer que todos os outros se pautem pelos nossos critérios, ainda que socialmente correctos. O Ocidente não tem o monopólio da verdade, da liberdade. Podemos e devemos reconhecer que já percorremos um caminho longo e que já realizámos coisas fantásticas, mas não temos o direito de obrigar os outros a realizarem esse percurso tão depressa ou ao mesmo tempo que nós, porque nem todos corremos a par. Querer estabelecer uma medida igual para todos é o ideal; mas impor a obrigatoriedade de todos chegarem ao fim milimetricamente a par é impensável. Tentar consegui-lo é bom, tentar impô-lo, não respeitando o ritmo de cada um, é clara ditadura. Este é o princípio da colonização. Foi por aqui que se saltou para as Américas, para a África e para a Ásia.

Estarmos, porventura, certos da superioridade dos nossos valores não nos pode levar a destruir ou a violar os valores dos outros. E, quando tal se realiza pela força,… ainda mais complicado se torna. A Europa nunca deixou o mundo ser ele próprio, porque tudo tem de ser feito à imagem e semelhança do colonizador (dominador).

Noutros tempos não havia reacção, ou, se havia, era controlada pela força. Hoje não é assim, porque os outros povos têm consciência da sua força e mostram-nos que a usam sem qualquer restrição, até ao mais reprovável fanatismo!

E aqui entra a outra face da medalha: nada justifica a reacção sem medida e a violência brutal utilizadas como moeda de represá-lia. Diz o ditado que “Se um burro te dá um coice, não é caso para lhe cortar a perna”. Consequentemente, todo o movimento que gera violência, guerra e morte, é sempre desproporcionado. Perde-se toda a razão quando, para se defender uma posição, mesmo que legítima, se entra pelos caminhos sempre escorregadios da violência que gera violência. Nada, absolutamente nada, pode justificar a violência e a morte, e o ódio entre as pessoas.

Não estamos em tempo de cruzadas. Os valores, de um e de outro lado, aceitam-se, acolhem-se, vivem-se e respeitam-se mutuamente. E teremos de ser nós, os ditos mais evoluídos, a praticar primeiro, para ensinar depois este caminho, mas sempre no respeito pela consciência e pela cultura de cada povo.

A caricatura que rebaixa e o ridículo que destrói, tal como a intolerância, a violência e o sangue, não podem ser metidos no mesmo saco que o respeito, a liberdade e a tolerância activa, valores por todos proclamados.

Por isso, lamento o ridículo e a baixeza de uns, lamento o fanatismo e os excessos de outros. Num caso e noutro, faces diferentes mas com mensagem comum: duas verdadeiras caricaturas da liberdade. Ambas têm que ser banidas do espaço das nossas relações humanas.

Não vamos restaurar nem criar uma nova Inquisição: quem não pensa como eu tem que ser abatido, porque nenhum humano transporta em si a verdade total; não somos portadores senão de uma pequena parte da verdade. A plenitude de Deus está fora do nosso alcance. Só Ele é a Verdade total. E, se uns e outros acreditamos nesse mesmo Deus,…