Se não cuidarmos do ambiente, as consequências são catastróficas para todos, alertou Carlos Borrego, na primeira Conferência da Primavera, na Gafanha da Nazaré. A iniciativa prossegue amanhã, às 21h, com Barbosa de Melo, que responde a: “Que justiça na era da globalização?”
Carlos Borrego, professor da Universidade de Aveiro (UA), foi o convidado da primeira sessão das Conferências da Primavera, promovidas pela Paróquia da Gafanha da Nazaré, inseridas nas comemorações do primeiro centenário da criação da paróquia.
Após a actuação do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, Carlos Borrego analisou o tema “Questões ambientais: moda ou urgência?”. Hoje, o ambiente é uma “urgência”, sob pena da Terra entrar num caminho sem retorno, de consequências catastróficas para a humanidade.
“Somos parte do problema” e “somos parte da solução”, realçou o investigador da UA, que afirma que a maioria dos portugueses gosta muito de “atirar as culpas para cima dos outros, não exercendo a sua condição de cidadania”. Como estamos em vésperas de três actos eleitorais, este antigo Ministro do Ambiente apelou aos presentes para exercerem o direito de cidadania, conhecendo as propostas de cada partido e votando em conformidade.
Os grandes problemas ambientais são globais e devem ser resolvidos à escala planetária. No entanto, como afirmou Carlos Borrego, cada cidadão pode contribuir para a sua resolução, fazendo gestos simples, como fechar a torneira enquanto se lava os dentes, desligar os equipamentos eléctricos no botão e não no comando, mudar para lâmpadas economizadoras, fazer separação selectiva dos lixos, reduzir o consumo de bens desnecessários, andar mais a pé, de bicicleta ou em transportes públicos e menos de automóvel particular. Estes simples gestos podem fazer a diferença, permitindo a redução até 20% do consumo doméstico de energia, a poupança anual de centenas de litros de água por família, a substancial redução de desperdícios.
Nos finais da década de 1950, as chuvas ácidas foram o primeiro grande alerta para a poluição atmosférica. A partir da década seguinte, o aumento das catástrofes naturais tem sido constante, o que significa que elas já não são somente “naturais” mas resultam da intervenção humana. Com as alterações climáticas, esse aumento de ocorrências extremas será enorme, com chuvas intensas e inundações devastadoras, seguidas por secas prolongadas e incêndios florestais de grandes dimensões. O aumento da temperatura irá provocar a subida do nível médio das águas do mar, fazendo desaparecer importantes cidades do litoral. Em Portugal, muitas povoações do litoral serão atingidas, ao ponto de Coimbra poder ter praia oceânica, alertou Carlos Borrego.
Progresso humano e ético
As questões de poluição do ar, contaminação da água potável, erosão e ocupação urbana dos solos aráveis irão reflectir-se num progressivo aumento de doenças, fome e numa substancial redução da qualidade de vida.
Depois de citar recentes preocupações do Papa Bento XVI sobre o ambiente, Carlos Borrego defendeu que “este terceiro milénio tem de ser totalmente diferente em termos ambientais”, dando primazia ao “progresso sustentável” que para além de ser económico e técnico, terá de ser sobretudo “humano, ético e moral”.
Cardoso Ferreira
