Aveirenses Notáveis Natural de Lisboa, Carlos de Faria e Melo fixou residência em Aveiro, cidade onde se notabilizou como jornalista e escritor, tendo sido agraciado pelo Rei D. Carlos com o título de 1.º Barão de Cadoro. Textos de Cardoso Ferreira.
Carlos de Faria e Melo nasceu na freguesia lisbonense de Santa Justa, no dia 12 de julho de 1849, e faleceu em Aveiro, em julho de 1917, tendo exercido atividades tão diversas como escritor, jornalista, político e diplomata.
Ainda que nascido na capital, Carlos de Faria era filho do aveirense José da Silva e Melo e da brasileira Ana de Faria e Magalhães (ambos falecidos em Aveiro) e irmão de Jorge de Faria e Melo e de Paula de Faria e Melo, casada com Bernardo Xavier de Magalhães.
Carlos de Faria e Melo casou, pela primeira vez, no dia 30 de junho de 1869, em Lisboa, com uma prima, de origem brasileira, de nome Maria Teresa de Melo Soares de Freitas, filha do Francisco da Silva e Melo Soares de Freitas, 1.º Visconde do Barreiro. Desse casamento nasceu, em 7 de julho de 1871, Maria Teresa de Faria e Melo, que faleceu em Aveiro, no ano de 1929, então já detentora do título de 1.ª Baronesa da Recosta. O segundo casamento foi com a espanhola Rosa Eloísa de Milanos y Cossi. Deste segundo casamento nasceram dois filhos: Carlos de Faria de Milanos, nascido em Aveiro, no dia 3 de dezembro de 1879, e que usou o título de 2.º Barão de Cadoro, e Ana de Faria e Melo de Milanos, nascida no dia 6 de Janeiro de 1880. Pelo lado paterno, Carlos de Faria é bisavô do político e poeta Manuel Alegre.
Agraciado
pelo Rei D. Carlos
Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, Carlos de Faria iniciou, ainda muito novo, a sua carreira jornalística, tendo fundado e dirigido diversos jornais, alguns de cariz literário. Como escritor, publicou vários livros. Para além disso, desempenhou cargos políticos, designadamente o de Administrador do Concelho de Aveiro e o de Governador Civil do Distrito de Aveiro, tendo sido também Cônsul de Espanha em Aveiro.
Por decreto datado de 16 de novembro de 1893, o Rei D. Carlos, de Portugal, atribuíu-lhe o título de 1.º Barão de Cadoro, o qual poderia ser usado por duas gerações. Já o país vizinho, concedeu-lhe o grau de Comendador da Ordem de Isabel a Católica.
Referindo-se a Carlos de Faria, o jornalista aveirense Eduardo Cerqueira descreveu-o como sendo uma “distinta figura de homem do grande mundo, com gostos cosmopolitas, frequentador de Paris e de outras prestigiosas cidades europeias – que só raros, ao tempo, visitavam –, dissipador de fortunas dado a certas extravagâncias, que fazia morder de emulação o provinciano patrício de comedidos hábitos burgueses. Por diletantismo, e porque lhe não escasseasse a veia, entregava-se, desde os tempos de estudante universitário, ao jornalismo, mais literário que político, se bem que neste domínio metesse por vezes oportuna colherada, com certo vigor e alguma graça”.
Carlos Faria foi redator efetivo do jornal “O Povo de Aveiro”. Fundou e dirigiu o jornal “A Locomotiva” (que se autointitulava “Periódico dos Caminhos de Ferro”). Com Gervásio Lobato, fundou o periódico “Comédia Portuguesa”, tendo ainda integrado a redação do “Jornal do Norte”, de António Augusto Teixeira de Vasconcelos.
No “Locomotiva”, Carlos de Faria também assinou textos com o pseudónimo “Carvão”, nome “inspirado no título do trissemanário” (saía às terças, quintas e sábados), como realçou Eduardo Cerqueira num texto sobre jornais e jornalistas aveirenses.
Como escritor, Carlos de Faria publicou várias obras de ficção, nomeadamente os livros intitulados “Um Conto de Reis”, “O Piano”, “Portugueses Cosmopolitas” e “Diniz”. Em colaboração com Joaquim de Melo Freitas, publicou a obra “Homenagem ao distinto explorador de África Serpa Pinto”. Para além disso, cooperou em diversas iniciativas de relevo na vida social e cultural aveirense.
“Locomotiva”, jornal de ambição nacional
Sediado em Aveiro e com correspondentes em Lisboa (Gervásio Lobato), Porto (Luís de Magalhães, filho de José Estêvão Coelho de Magalhães) e Coimbra (Alexandre da Conceição), o jornal “Locomotiva” tinha grandes ambições. O primeiro número saiu a público no dia 15 de maio de 1883, conforme notou Eduardo Cerqueira, ao escrever que na extensa lista de colaboradores que logo no primeiro número “anuncia em grandes caracteres, inclui nomes dos mais ilustres das letras nacionais, com alguns dos quais privou o diretor”. Carlos de Faria e Melo prometia a “colaboração de escritores e intelectuais da estirpe e nomeada de António Cândido, António Feijó, Camilo, Conde de Samodães, Fernando Caldeira, Joaquim de Vasconcelos, Oliveira Martins, Teixeira de Queirós e Visconde de Benalcanfor. Acrescentar-lhes-ia, em números posteriores, Guilherme de Azevedo – então já falecido, mas de que publica algumas produções, não sabemos se inéditas –, Eça de Queirós, Ramalho, o botânico Júlio Henriques – ligado a Aveiro pelo casamento e pela jazida que escolheu –, Teófilo Braga e outros. Entre os cultores locais das boas letras não comprometidos e absorvidos noutras colaborações regulares, mencionava Sebastião e Jaime de Magalhães Lima, Melo Freitas, Marques Gomes e Agostinho Pinheiro”.
No primeiro número do “Locomotiva”, foi publicado um poema que Camilo Castelo Branco enviou a Carlos de Faria, poema que Eduardo Cerqueira considerava ser inédito e só publicado naquele jornal aveirense.
O último número do jornal “Locomotiva” foi publicado no dia 27 de setembro de 1883, tendo sido publicados 59 números.
