Carta para meditar em Lisboa e Taizé

Excertos de “Um Futuro de Paz” Oitenta jovens da diocese de Aveiro participam, com outros 40 mil vindos de toda a Europa, na “Peregrinação de Confiança através da Terra”. O encontro decorre em Lisboa, de 28 de Dezembro a 1 de Janeiro, e reúne muitos dos que já foram tocados pelo espírito de Taizé – comunidade inter-religiosa fundada no centro de França pelo Irmão Roger. Para o encontro de Lisboa, o Irmão Roger escreveu a carta “Um Futuro de Paz”, que será também meditada ao longo de 2005 em Taizé. Deixamos alguns destaques (pode aceder à carta na totalidade em www.taize.fr).

Se há quem, tomado pela inquietação face a um tempo incerto, se quede ainda imobilizado, há também, por todo o mundo, jovens cheios de vigor e de criatividade. Esses jovens não se deixam arrastar por uma espiral de melancolia. Sabem que Deus não nos criou para sermos passivos e que a vida não está submetida aos acasos da fatalidade. Estão conscientes disto: o que pode paralisar o ser humano é o cepticismo ou o desânimo.

Por isso, procuram, com toda a sua alma, preparar um futuro de paz e não de infelicidade. Mais até do que supõem, eles conseguem já fazer de suas vidas uma luz que ilumina tudo à sua volta.

Em Taizé, em certas noites de Verão, sob um céu repleto de estrelas, ouvimos os jovens das nossas janelas abertas. Surpreende-nos serem tão numerosos. Vêm para procurar e para rezar. E pensamos: as suas aspirações à paz e à confiança são como estas estrelas, pequenas luzes a iluminar a noite.

Vivemos num período em que muitos se interrogam: o que é a fé? A fé é uma confiança muito simples em Deus, um indispensável impulso de confiança, permanentemente retomado ao longo da vida.

Em cada um de nós, pode haver dúvidas. Elas não têm nada de inquietante. Queremos sobretudo ouvir Cristo murmurar nos nossos corações: «Tens hesitações? Não te inquietes, pois o Espírito Santo permanece em ti.»

Um coração simples não tem a pretensão de compreender sozinho tudo o que diz respeito à fé. Mas pensa: aquilo que não entendo bem, outros o compreendem melhor e esses ajudam-me a prosseguir caminho.

Julgamos que para rezar são necessárias muitas palavras? Não. Na verdade, bastam poucas palavras, por vezes desajeitadas, para entregar tudo a Deus, tanto os nossos medos como as nossas esperanças.

A oração não nos afasta das preocupações do mundo. Pelo contrário, não há nada de mais responsável que a oração: quanto mais vivermos de uma oração muito simples e humilde, mais somos levados a amar e a expressar o amor através da nossa vida.

É verdade que ao longo da história, os cristãos conheceram múltiplos abalos: surgiram separações entre os que, afinal, se referiam ao mesmo Deus de amor. Restabelecer a comunhão é hoje urgente, não se pode adiar permanentemente até ao fim dos tempos. Será que fazemos tudo para que os cristãos despertem para o espírito de comunhão?

«Comunhão» é um dos mais belos nomes que a Igreja tem: nela, não pode haver severidades recíprocas, mas só transparência, bondade do coração, compaixão… e assim se conseguem abrir as portas da santidade.

No Evangelho, podemos descobrir esta realidade surpreendente: Deus não provoca nem medo nem inquietação; Deus só pode amar-nos.

O Espírito Santo é em nós o amparo de uma comunhão com Deus, não apenas por um instante, mas até à vida que não tem fim.

Ir Roger de Taizé