Casa Comum

QUERUBIM SILVA Padre. Diretor
QUERUBIM SILVA
Padre. Diretor

1. O Papa Francisco é sempre surpreendente. Desta vez, até os marcianos têm lugar na Igreja. A expressão não é simplesmente retórica. É simbólica, sem dúvida, mas o referente de um profundo e denso conteúdo. Tão simples como isto: um “hospital de campanha” não pode recusar nem sequer os mais ferozes inimigos; tem de ter lugar para todos os que dele necessitam. A Igreja tem de estar permanentemente de portas abertas, disponível para acolher todos os feridos, de todas as feridas, e ofertar todos os seus recursos em benefício daqueles que urge tratar.

Esse é o primeiro gesto expressivo da mensagem de Jesus como Boa Notícia: sentir-se acolhido, mesmo quando se andou longe, mesmo quando se esteve do lado contrário, mesmo quando nos perdemos no labirinto das justificações interesseiras, dos pretextos insignificantes…, é a clara gramática da convicção da ressurreição, único fundamento sólido da esperança que permite os começos ou recomeços.
Acolhidos para sermos curados! Será ilusório acolher no “hospital de campanha” para deixar que continuemos tocados pelos mesmos focos infeciosos, para não liquidar os vírus, as bactérias… A Palavra do Mestre não deixa dúvidas: o abraço do acolhimento é o tónico para mudar de rumo, para intensificar o entusiasmo da conversão, do empenhamento, do testemunho. “Vai em paz; e não voltes a pecar” ou “Hoje entrou a salvação nesta casa” ou “A quem muito se perdoa muito ama” – são palavras que ouvimos constantemente d’Aquele que nos cura de todas as feridas.
Só assim se compreende que, no meio dos destroços das guerras fratricidas, nos territórios das desconfianças institucionais, seja a casa da Igreja o oásis da esperança da reconciliação e do recomeço.

2. As eleições europeias estão aí. Perecem-nos coisas demasiado longínquas e tão pouco influentes no nosso quotidiano que é fácil ceder à tentação da abstenção.
É verdade que a imagem que passa é a de um parlamento que sorve rios de dinheiro sem produtividade que o justifique. É mesmo escandalosa a ineficácia, a enércia da maioria dos parlamentares. E pena é que a nossa comunicação social não escrutine – aqui, sim! – o itinerário, o currículo dos propostos, para percebermos se temos alguém que valha. Muitos não valem mesmo. Até cabeças de lista!
Mas o certo é que as ideias que por lá passam vêm a traduzir-se, “a posteriori”, em condicionantes, se não mesmo imposições às nossas vidas nacionais. E os problemas reais dos nossos estados, das nossas nações, reclamam um conhecimento e uma capacidade de atenção, uma preparação de abertura e firmeza, para que o Parlamento Europeu promova a “casa comum” dos povos da Europa, incentive uma abertura recíproca às riquezas culturais e religiosas, como potencial de construção de unidade e de civilização de paz.
Também o Parlamento Europeu se deveria tornar, de algum modo, “hospital de campanha”, lugar de acolhimento, oásis de esperança, tónico de recomeços! Mas, para isso, precisaríamos, na maioria dos casos, de outros “médicos”, outros “enfermeiros”, isto é, outros deputados, que os haverá por aí, conhecedores da Europa, amantes dos povos e nações, sedentos de uma civilização de paz. E não pontas de lança de interesses partidários ou outros bem mais ocultos. De qualquer modo, diga sim ou não! Ficar em casa é que não ajudará a construir o que quer que seja!