Casa roubada, trancas à porta

Olhos na Rua Há ainda por aí gente convencida de que Portugal começou em Abril de 1974. Para esta e para outra que agora se fez ouvir mais, afinal o começo recuou a 1910. Por esta falha de memória é que não falta quem já anuncie o fim próximo.

Neste país das ilusões fáceis e da propaganda ilusória de um Estado social impossível, porque irrealista e anémico, abunda a falta de memória, mas superabunda a imaginação fácil e ao gosto próprio.

Era fácil de ver onde levaria, na escola, o desprezo da memória com a mutilação do ensino da História; a pobreza da capacidade reflexiva com o desprezo pela Filosofia; a qualidade pobre do raciocínio com a Matemática das maquinetas; a dificuldade em falar e escrever correctamente a língua pátria com o menosprezo pelos erros da escrita e da linguagem. Tudo a partir do básico e, não raro, até ao diploma de licenciatura. Onde poderia levar a facilitação de tudo com o desfavor do trabalho necessário, da frequência obrigatória, da ordem e do respeito na aula, da superficialidade e do pouco testemunho a partir de cima? Só a um país anestesiado pelas emoções desportivas, pelas telenovelas amorais, pelos jogos televisivos onde se ganha sempre, mesmo dizendo disparates.

Quem não semeia não pode colher. Quem semeia ventos – deixou dito o povo quando ainda era sábio das coisas da vida – não pode colher senão tempestades. Agora, lá vêm os paninhos quentes e os sorrisos fáceis, panaceia para todos os males do reino.