O mês de Novembro é marcado, na piedade cristã, pela referência predominante da morte. Valerá a pena perguntarmo-nos se, pela forma como o vivemos e anunciamos, constituirá testemunho credível para os não crentes ou afastados.
A legítima saudade daqueles que nos precederam pode tornar-se uma doentia lamentação do limite humano, sem horizonte de Esperança. É fácil perceber que assim acontece muitas vezes, persistindo uma interior mas profunda revolta contra a nossa mortalidade.
Na obscuridade do silêncio e separação que a morte traz, buscam-se todas as formas de um impossível contacto sensível. Em meio de nebulosa relação espiritual, mistura-se a mediação do mais inacreditável, para superar a verdade da morte, que é esse silêncio profundo e separação insuperável.
Intimamente, possui-nos o desejo de ser como deuses. E, como o não conseguimos, resvalamos para dúvidas que não esclarecemos, envolvemo-nos em sincretismos religiosos nada edificantes.
Jesus Cristo, crucificado e morto, é o único caminho para acolhermos a dureza do sofrimento e da morte. Também nós quereríamos um deus que magicamente nos tornasse divinos e imunes ao sofrimento e à morte. Mas o Verbo de Deus incarnou precisamente para assumir toda esta nossa fragilidade e mortalidade e nos abrir, pela Sua ressurreição, as portas da vida sem limites, sem dor, sem sofrimento, sem lágrimas, a vida da abundância divina, como no-la descreve o profeta Isaías: o banquete de manjares suculentos!
Pregamos Jesus Cristo crucificado, loucura para os não crentes, que só acreditariam num deus que nos fizesse imortais e perfeitos neste mundo, dentro dos limites da história, do espaço e do tempo, como se a pessoa humana subsistisse sem Deus.
É aí, é nEle, que por nós padeceu, morreu e foi sepultado, mas ressuscitou, que encontramos razões da nossa Esperança. E só a partir desta convicção vivida é que o nosso relacionamento com os entes queridos que partiram tem sentido e ganha forma.
A certeza de que muitos deles foram dos santos anónimos, que celebramos a par dos fiéis defuntos, anima-nos, estimulados pelo seu exemplo e certos da sua proximidade que nos apoia. A caridade cristã tem a certeza de que, sendo nós uma Família, um só Corpo, a nossa oração será de auxílio à perfeição definitiva para os que estão nesse caminho.
Então, Novembro será mês da Vida: da fé na Vida que nos vem de Cristo; da esperança de que a morte é a porta para a Vida!
