Casais de segunda união são casais de segunda mãos?

JOÃO QUERIDO

Elemento das Equipas de Nossa Senhora

Numa era em que o número de casais que se divorciam ou separam aumenta aceleradamente é tempo de tentar analisar o acolhimento que a Igreja dispensa a estas pessoas. É sabido que existem movimentos exclusivos para casais que contraíram o seu matrimónio na Igreja e que desejam aprofundar a sua fé a dois, como é o caso, por exemplo, do movimento das Equipas de Nossa Senhora. Mas, e para os outros? Para os «não regulares»?

Recordo-me muitas vezes da circunstância que me fez conhecer o então Bispo de Aveiro, D. António Marcelino, logo no ano seguinte a ter vindo morar para Aveiro, no já longínquo ano de 1995. No âmbito da pastoral familiar, o Sr. Bispo queria criar uma equipa de casais com o fim de apoiar os casais recasados. Para tal tivemos formação específica, ouvimos testemunhos diversos, sobretudo do Cónego Carlos Paes, que acompanhava as «Equipas de Santa Isabel», constituídas por casais recasados, na paróquia de São João de Deus, em Lisboa. Mas, infelizmente, após dois anos, a equipa de Aveiro desfez-se com apenas uma acção pública, realizada em Maio de 1997 na paróquia de Esgueira, com o salão paroquial cheio. O bispo da diocese, entretanto, orientou vários encontros arciprestais sobre o tema, participados por muita gente interessada. Mas agora, cada vez com mais casais nestas circunstâncias, o que se passa?

Não é objectivo deste artigo de opinião imputar culpas, seja a quem for, pela não continuação desta auspiciosa tentativa de criar em Aveiro algo concreto para estes casais em sofrimento. Mas constato com tristeza que, após 15 anos, nada mais se fez nesta área da pastoral familiar, nem em Aveiro, e, pelo que posso saber, talvez nem noutras dioceses de Portugal. Algumas conferências e artigos, mas pouco mais. E, pior que isso, constato que a prática de acolhimento defendida pelo Papa João Paulo II na sua encíclica «Familiaris Consortio», de 1981, reforçada pela Exortação Apostólica do Papa Bento XVI “Sacramentum Caritatis”, escrita em Fevereiro de 2007, da qual destaco «a cooperação na vida comunitária, o diálogo franco com um sacerdote, o empenho na educação dos filhos» não tem sido suficiente para que esses casais se aproximem da Igreja de Cristo, ou sintam o interesse desta.

Pelo contrário, tenho assistido recentemente a testemunhos de dificuldades que esses casais sentem em baptizar os filhos de uma segunda união, em algumas paróquias da diocese de Aveiro.

Outra realidade que emerge é a dos casais que vivem em união de facto, sem qualquer vínculo, civil ou religioso. Do mesmo modo aqui constato que existem párocos que só aceitam baptizar os filhos dessa união se, entretanto, os pais se casarem pela Igreja. Não é valorizado o facto de os padrinhos responderem às exigências da Igreja e se responsabilizarem pela educação católica da criança em questão ou esta ter nos avós, por exemplo, alguma garantia dessa educação. Não, ou os pais contraem o matrimónio ou o filho apenas poderá ser baptizado na catequese antes de poder fazer a primeira comunhão. É assim que abrimos a todos as portas do reino de Deus? Os filhos têm culpa da situação matrimonial dos pais? Terá o direito ao Baptismo de estar ligado à obrigação de casamento religioso dos pais?

Este é o momento de fazer algo. «Porque a Igreja não pode estar pastoralmente tranquila ante esta dolorosa realidade», conforme refere D. António Marcelino, na revista «Fórum Canonicum», (Vol. III-1). Porque não criar até uma Pastoral específica para estes casais? É importante a Pastoral Familiar, sim, mas esta pastoral não pode ser apenas dirigida aos casais que vivam em comunhão pelo sacramento do Matrimónio. Há que abarcar e acolher «os outros». De outro modo, num momento em que o número de casamentos católicos é cada vez menor, daqui a uns anos teremos a Igreja e os templos sem casais nem famílias.

Também o Movimento das Equipas de Nossa Senhora, a que pertenço, se deve debruçar sobre este problema. No Encontro Internacional de Responsáveis Regionais das Equipas de Nossa Senhora, em Janeiro de 2003, em Roma, reflectiram, debateram e decidiram as Orientações do Movimento para os anos 2006-2012. Uma delas é: «O nosso Movimento deve acolher, com caridade e misericórdia, as novas realidades vividas pelos casais e estar ao serviço da sociedade no que toca ao domínio conjugal e familiar (…) tomando iniciativas para que nasçam e se desenvolvam grupos ou novos movimentos que respondam, a partir do nosso carisma, às novas situações dos casais». Em França, onde o movimento nasceu, já foram criadas as equipas «Reliance» (1). Em Portugal não consta ter sido feito nada. E 2012 já está tão perto!

Neste tempo de Quaresma, acolhamos estes casais, como Jesus acolheu a Samaritana. Voltando a citar o nosso Bispo Emérito, «Deus não suporta as nossas inércias, quando são fruto de um comodismo assumido ou de um alheamento para com os outros». E sobretudo quando tratamos os casais em segunda união como casais de segunda mão.

(1) Sítio em http://www.equipes-notre-dame.fr/index.php?Itemid=62&id=25&option=com_content&task=view