Uma Angola de corrupção, hospitalidade e oportunidades na mesma dimensão: enormes

Testemunho Testemunho de um mês de voluntariado missionário em Angola. Zulay Costa, 31 anos, é jornalista da Vagos FM e colaboradora do “Jornal de Notícias” e de “O Ponto”

Diz-me, quanto é preciso o outro sofrer para deixarmos de ignorar e agir? Quão funda precisa ser a sua dor ou fome de alimento, paz ou justiça, para irmos ao seu encontro? Qual a medida, qual o tempo?

Em Angola, durante a experiência de voluntariado missionário que realizei em Janeiro último, enviada pela diocese de Aveiro e ong-d ORBIS – Cooperação e Desenvolvimento, confirmei o que já sentia e repetirei até que me ouçam: por acção ou omissão, todos somos responsáveis. Quem tem a possibilidade de fazer alguma coisa, tem o dever de fazer alguma coisa. Agora.

A “missão” não é um ponto de chegada, não começa quando partimos para Angola ou para qualquer outro lugar distante. Começa dentro de nós, quando deixamos de ser de nós próprios para passarmos a estar ao serviço dos nossos irmãos que sofrem, seja noutro continente, seja ao virar da esquina ou até dentro de casa.

É uma viagem sem regresso, esta e a de Angola, porque tudo o que vivemos e todos os que conhecemos estão connosco, se os deixarmos tocar-nos.

E não sei quem precisará de mais ajuda. Quem deixei lá trás, com carência de formação, cuidados médicos, alimentação, bens materiais; se aqueles para quem voltei, a quem faltam valores de solidariedade, inter-ajuda, determinação para lutar em prol do bem comum e até capacidade de perdoar. Qual de nós o mais pobre…

Chegar

À chegada a Angola, uma baforada de ar quente envolve-me e perpetua-se. O país que conheci é sufocante, caótico, cheio de desequilíbrios, de lixo, de carros que se espremem em ruas de alcatrão inacabadas na capital ou caminhos de pó vermelho. Uma Angola que já não é de guerra mas ainda não é de paz, da reconstrução feita a pulso e, infelizmente, muitas vezes sem coerência ou com prioridades invertidas. Um país desenvolvido e rico que vive paredes meias com uma pobreza enorme. É feita de crianças que carregam crianças e se juntam em oratórios, de jovens que vivem nas ruas e lutam por mudar… Uma Angola de corrupção, hospitalidade e oportunidades na mesma dimensão: enormes.

Estar

Em Angola, a juventude sobressai. Mas o seu futuro depende de todos nós. Na Lixeira, um bairro na periferia de Luanda, os limites entre o bem e o mal, a doença e a saúde, são ténues.

O percurso até às Mabubas, onde eu, outros voluntários e seminaristas salesianos fomos fazer oratório (actividades para evangelizar e animar crianças que estão na rua), ficou-me gravado e ainda hoje posso percorrê-lo se fechar os olhos.

Volto à Lixeira: crianças sujas cuidam de outras crianças no meio da imundice, há caminhos de terra vermelha e lama, mosquitos e moscas sobrevoando montes de lixo, fezes e restos de comida putrefacta pelo chão. De permeio, centenas de casas, feitas de cimento e chapa, descem socalcos. Algumas não têm porta ou janelas. Caminho, caminho, caminho, caminho e nunca mais acaba. Caminho em direcção às Mabubas, nas profundezas da Lixeira. A miséria não tem fim. Impressiona. Cruzamos a linha de comboio. Mais sujidade, um cheiro nauseabundo está em todo o lado.

E gente, gente, gente que também parece não mais acabar. Esta é a Lixeira. Dura. Suja. Injusta. Insegura.

Para milhares, este não é um local de passagem. É a sua vida, a sua casa. Custa chamar-lhe casa, quando sei que há tão melhor no mundo. Não sei como não chamar-lhe isso, pois muitos não conhecem outra realidade, não têm mais nada.

A pobreza debaixo dos meus pés, a toda a volta e até nos meus braços, quando segurei um bebé, dói. Pouco depois de chegar às Mabubas, uma criança que disse ter seis anos passou-me para os braços a irmã de apenas um ano, que estava a cuidar. Queria ir saltar à corda e ser verdadeiramente criança, por breves instantes. Dói muito.

A insegurança é enorme. E eu até poderia ter tido medo, se não estivesse tão assombrada com as imagens que me entravam pelos olhos dentro e se não acumulasse um cansaço tão profundo. Não é o físico, de não dormir. Não é um cansaço derivado deste calor que me sufoca quase tanto como o pó. É um cansaço que se entranha nos poros, de ver esta miséria tão grande e esta gente que no início parecia abandonada à sua sorte.

Na Lixeira há muitos ladrões, mas há também homens e mulheres com fé e crianças com sonhos. Cedo percebi que esta gente não está abandonada. E a minha fé cresceu. Todos deviam conhecer uma Lixeira um dia, talvez fôssemos mais irmãos e solidários; perceberiam a urgência de estar ao serviço do outro. Há padres, missionários e voluntários que escolheram livremente estar ao seu lado e trabalhar para que tenham uma vida mais digna. São os heróis do nosso tempo.

Deus, cuida desta gente.

Permanecer

Há perguntas às quais não nos podemos furtar. Como seria eu, se tivesse nascido em África? Teria resistido às doenças, à corrupção, à violência? Como seria eu se tivesse carregado um irmão às costas desde os seis anos de idade? Se tivesse que percorrer quilómetros diariamente para conseguir água e transportá-la à cabeça num balde? Se não tivesse uma escola?

Urge partilhar ferramentas e conhecimentos para que o desenvolvimento de populações mais pobres seja sólido.

Urge também que os ditos países desenvolvidos aprendam com África o valor da partilha, a capacidade de resistência e alegria na adversidade… Porque muitos não sucumbem à marginalização aos problemas de álcool, corrupção, drogas, prostituição… Porque muitos resistem e me receberam de braços e sorrisos abertos, sem reservas ou exigências, quando aterrei…

Urge que nos responsabilizemos, cada um de nós, e façamos a nossa parte para equilibrar o mundo. Sim, porque ninguém se pode furtar e lavar as mãos. Os nossos comportamentos, escolhas, a nossa capacidade de nos entregarmos ao outro e estender a mão a quem vive numa ‘lixeira’ perto de nós, têm valor e ajudam a construir um mundo mais justo e fraterno…

Na hora de apanhar o avião para Portugal, Mafalda Veiga cantava na minha cabeça: “E a vida não é existir sem mais nada/a vida não é dia sim, dia não/É feita em cada entrega alucinada/para receber daquilo que aumenta o coração”.

A missão não tem fim.

Zulay Costa