A divisão entre igrejas cristãs – católicos, ortodoxos, protestantes… –, noutros tempos alicerçadas num ódio de morte, é um dos sinais mais negativos que os cristãos dão ao mundo. Mas há outras divisões no interior da própria igreja católica que dificultam a sua ação, deturpam a sua mensagem, fazem com que seja difícil cada um encontrar o seu lugar.
Timothy Radcliffe, frade dominicano inglês, escreveu em “Ser cristão para quê?” (Ed. Paulinas) um capítulo sobre estas divisões internas da Igreja que asfixiam a sua capacidade de ser autenticamente evangélica ou missionária, fraturam comunidades, provocam ira entre as pessoas. Seguimo-lo neste texto.
Estas divisões internas atravessam toda a Igreja, do Vaticano às dioceses, dos bispos aos padres, dos movimentos às paróquias.
Na origem destas divisões internas está a polarização que existe na própria sociedade que desde há uns séculos divide tudo em direita e esquerda, conservadores e progressistas. As tensões sociais, por assim dizer, contagiaram a Igreja. Não é que a Igreja deva estar fora do mundo. Está no mundo sem ser do mundo. Mas não se devia deixar contaminar por tensões que estragam a sua própria identidade.
Radcliffe chama a estas tensões “católicos do Reino” e “católicos da Comunhão”. Sintetizo as características de uns e outros. Embora a maioria dos cristãos se reencontre em ambos, quase todos nós preferimos mais um ou outro tipo.
Obviamente, “não pode haver vitória de nenhum dos partidos, Reino ou Comunhão, porque isso seria a derrota da Igreja. “O desafio é o de viver em vida a tensão dinâmica entre o pão [dado aos discípulos] e a taça [do sangue derramado por todos] , entre a reunião em comunidade e a abertura a toda a humanidade, entre a nossa identidade dada e a desconhecida”. A Igreja precisa das duas correntes ou tensões. Em vez do “ou isto ou aquilo” temos do passar para o “e isto e aquilo”. “Esta é a respiração da Igreja, a sua inspiração e expiração”. “Precisamos de inalar o sopro com os católicos da Comunhão e expelir o sopro com os católicos do Reino, se quisermos que os nossos pulmões funcionem bem e o Corpo de Cristo permaneça vivo”, escreve Radcliffe. Esta reflexão continua na próxima semana.
J.P.F.
Católicos do Reino
* Veem-se como Povo de Deus em peregrinação para o Reino
* Os principais teólogos colaboram na revista “Concilium”
* Não há revelação nem verdade sem liberdade
* Doutrina central: Incarnação
* Veem a verdade como uma libertação
* Centra-se na práxis e na experiência
* Cristo é o que derruba fronteiras
* Ubi Christus, ibi ecclesia – Onde está Cristo, aí está a Igreja
* Dão mais destaque ao “sangue derramado pela multidão” (“por todos”)
* Pensam (erradamente) que os católicos da Comunhão são uns saudosistas do passado
Católicos da Comunhão
* Veem-se como membros da instituição Igreja, a Comunhão dos crentes
* Os principais teólogos colaboram na revista “Communio”
* A verdade e a beleza têm autoridade para atrair as pessoas
* Doutrina central: Cruz
* Veem a verdade como um reagrupar das forças
* Centram-se na adoração e na liturgia
* Cristo é o que reúne uma comunidade
* Ubi ecclesia, ibi Christus – Onde está a Igreja, aí está Cristo
* Dão mais destaque ao “pão dado aos discípulos” (“por vós”)
* Pensam (erradamente) que os católicos do Reino sucumbiram à cultura do relativismo
