Centenário da Misericórdia de Anadia

Sede acolhe Museu José Luciano de Castro A Misericórdia de Anadia celebra 100 anos no dia 8 de Dezembro de 2008. Conheça esta instituição quase centenária

A Santa Casa da Misericórdia de Anadia foi fundada em 1908, por um grupo de cidadãos, entre os quais José Luciano de Castro, um dos mais influentes políticos portugueses das últimas décadas da Monarquia e que chefiou o governo na nação durante vários anos.

A sede da Misericórdia de Anadia está instalada no antigo palacete Seabra de Castro, onde residiu José Luciano de Castro. O imóvel acolhe também o Museu José Luciano de Castro, a Biblioteca e o Arquivo. O edifício está localizado na Rua Alexandre Seabra, outro ilustre anadiense, sogro de José Luciano de Castro, que ficou na história portuguesa como um dos maiores jurisconsultos do país.

Para além da sede, a Santa Casa da Misericórdia de Anadia possui diversas valências, nomeadamente o Jardim-de-Infância, o Lar de Idosos “José Luciano de Castro”, o Centro de Dia de Idosos – Complexo Seabra de Castro e a Quinta das Felgueiras.

Espólio do político e arte sacra

O Museu José Luciano de Castro ocupa as três salas da ala esquerda do rés-do-chão, junto à capela priva-tiva do palacete, templo que continua aberto ao culto.

O espólio do museu é muito diversificado. Integra peças de pintura, desenho, gravura, plantas, fotografia, imaginária, mobiliário, cerâmica, vidro, ourivesaria, numismática, trajes (civis e oficiais), livros e documentos em papel. Há ainda condecorações e outros objectos inerentes à actividade política e social exercida por José Luciano de Castro.

A par do espólio referente a José Luciano de Castro, há o acervo de arte sacra em que a própria capela privativa do palacete está inserida.

Para além das duas salas de exposições permanentes e da capela, há outros espaços incluídos no circuito visitável, como o corredor (com vários painéis de azulejos) e os jardins. A terceira sala da ala museológica, situada junto à entrada, acolhe as exposições temporárias.

Arquivo e Biblioteca

A Biblioteca e o Arquivo situam-se no piso superior. Esses dois espaços acolhem o que resta da rica biblioteca / arquivo documental pessoal de José Luciano de Castro. No entanto, há ainda inúmeros documentos e cartas pessoais dirigidas ao político por importantes personalidades da vida política, social, económica e cultural da época, documentos relevantes para um melhor conhecimento desses conturbados anos da vida portuguesa, marcados por acontecimentos relevantes como o “Mapa cor de rosa”, o “Ultimato Inglês”, a captura de Gongunhana, o “rotativismo partidário” e o “regicídio” de D. Carlos.

Para além desse espólio bibliográfico e documental, a Santa Casa da Misericórdia foi acolhendo mais documentos e livros, nomeadamente originário de outras famílias ilustres de Anadia e região envolvente, bem como ofertas de beneméritos.

A todo esse acervo há que juntar o próprio arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Anadia, com documentos fundamentais para a história local dos últimos cem anos.

Misericórdias no terreno há 510 anos

As “Misericórdias” formam a mais antiga rede de IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social) existente no país, estando no terreno há 510 anos.

Foi precisamente em 1498 que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa assumiu o seu “compromisso”. Pouco depois, foram criadas outras Misericórdias no país, entre as quais a de Aveiro, cujo “compromisso” data de 11 de Dezembro de 1519.

A Santa Casa da Misericórdia de Águeda é a segunda mais antiga existente na Diocese de Aveiro, tendo sido fundada no dia 12 de Novembro de 1859. A fundação da Misericórdia da Murtosa ocorreu no dia 23 de Setembro de 1896. Ainda no século XIX, em 1898, surgiu a Misericórdia de Anadia.

No século XX, foram criadas mais sete Misericórdias na Diocese de Aveiro. Assim, em 1919, surgiu a Misericórdia de Ílhavo. No ano seguinte, em 13 de Setembro, foi criada a Misericórdia de Oliveira do Bairro. A fundação da Misericórdia de Albergaria-a-Velha ocorreu no dia 5 de Maio de 1923. No dia 18 de Outubro de 1932 foi criada a Misericórdia de Sangalhos. A Misericórdia de Estarreja surgiu no último dia de Outubro de 1933. A fundação da Misericórdia de Vagos ocorreu no dia 16 de Janeiro de 1939. A mais recente Misericórdia a ser fundada na área geográfica da Diocese de Aveiro foi a de Sever do Vouga. O evento ocorreu no dia 14 de Janeiro de 1955.

José Luciano de Castro: Político no governo e na oposição

José Luciano de Castro Pereira Corte Real nasceu em Oliveirinha (Aveiro), no dia 14 de Dezembro de 1834, e faleceu em Anadia, no dia 9 de Março de 1914). Entre 1885 e 1910, chefiou cinco governos, actividade que intercalou com a liderança da oposição e da administração do Crédito Predial Português. Nesse período, José Luciano de Castro alternava esses cargos (no governo e no banco) com Hintze Ribeiro, líder do partido rival (quando um chefiava o governo, o outro presidia ao banco).

Com apenas 14 anos de idade, José Luciano de Castro matriculou-se na Universidade de Coimbra, terminando o curso de Direito cinco anos mais tarde, altura em que, com 19 anos de idade, foi eleito deputado, cargo que assumiu com o patrocínio do parlamentar aveirense José Estêvão e do jurisconsulto bairradino Alexandre de Seabra (seu futuro sogro), autor do Código do Processo Civil.

Ainda na universidade, iniciou a sua actividade jornalística, tendo colaborado, dirigido e fundado jornais, tanto da região de Aveiro, como de Coimbra, Porto e Lisboa. Entre os jornais que fundou destacam-se o “Jornal do Porto” (no qual Júlio Dinis publicou em fascículos a obra “A Morgadinha dos Canaviais”) e “O Direito – Revista de Legislação e Jurisprudência”. Na sua permanência na cidade do Porto, José Luciano de Castro partilhou a casa com Camilo Castelo Branco (na altura em que o escritor mantinha o romance com Ana Plácido). No Porto iniciou a carreira de advogado, que culminou com a sua escolha para vogal efectivo do Supremo Tribunal Administrativo.

Foi na política que José Luciano de Castro se notabilizou. No Parlamento demonstrou grandes dotes oratórios, com discursos que ficaram para a história. A nível partidário e governamental, foi “subindo degraus” até chegar a dirigente máximo do Partido Progressista, de que foi fundador, e a Presidente do Conselho de Ministros (Primeiro Ministro), cargo que exerceu nos seguintes períodos: de 20/2/1886 a 14/1/1890, de 7/4/1897 a 25/8/1890 e de 20/10/1904 a 20/3/1906.

Após a implantação da República, retirou-se definitivamente da política, não só pela idade mas também pela extrema debilidade física devido a complicações de saúde, acabando por deixar Lisboa e regressar definitivamente a Anadia.