Cinco meses de missão em Mçambique

Testemunho Laura Vaz está há cinco meses numa missão moçambicana. A pedido do Correio do Vouga, relata as suas vivências de leiga missionária. A missão termina em Janeiro de 2010

Há um mês foi-me lançado o desafio de escrever sobre estes quatro meses vividos em missão. Agora já são cinc0. Entretanto contraí malária, seguiu-se uma alergia no corpo todo resultante do medicamento da cura – disse o médico. Imaginem: fiquei toda pintadinha da cabeça aos pés. Parecia uma criança com varicela. Voltei a ser criança de novo aqui em Moçambique, mais propriamente no Orfanato da Missão de São Roque, Bela Vista, Matutuine, pertencente à arquidiocese de Maputo. A cidade capital de Moçambique fica a cerca de 90 quilómetros, por estradas de terra batida, na maior parte do percurso.

Alguns de vocês, leitores deste jornal diocesano, conhecem-me há bastante tempo, pois já tenho 61 anos e desde os 18 anos que aí vivo, nessa Veneza portuguesa. Buscava algo mais… E como leiga missionária carmelita descalça, ligada a um grupo da Igreja do Carmo (Aveiro), entrei num processo que me trouxe até aqui. Não foi fácil. Vejo que quem se dispõe a amar tem muito que passar. Sinto que Deus me tem dado forças. Sem Ele não estaria aqui. Não desisti por estas crianças, que nem conhecia, e por contar com o apoio dos meus filhos, da família e de alguns amigos, embora por vezes dissessem que eu era maluca… “Agora, com esta idade ires para Moçambique!” Mas sinto um apelo de Deus: “Vai, e faz o teu melhor!” É o que eu tento fazer, dar o meu melhor.

A missão tem neste momento 38 crianças de ambos os sexos, órfãos, uns de pai, outros de mãe e outros de ambos. Têm idades compreendidas entre os cinco e os 12 anos; estudam na escola que é da missão, mas que tem sete professores colocados pelo Ministério da Educação. No total, são cerca de 200 crianças das Comunidades à volta, sendo que algumas delas são subsidiadas também pela missão. O meu trabalho, aqui, é ajudar as crianças das 4.ª, 5.ª e 6.ª classes a fazerem os “TPC”- trabalhos de (para) casa. Muitas vezes, tenho que explicar tudo, porque algumas passaram de classe indevidamente. Mas é giro recordar matéria de que há tantos anos não falava, como o tipo de ângulos, calcular áreas, numeração romana, e outras coisas facílimas, como os meses do ano e os dias de cada mês e da semana. Tenho de explicar as horas e de fazer problemas sobre o tempo decorrido. E as contas de dividir? Por vezes é muito difícil fazer-me entender. Mas é estimulante. Mas também aprendo coisas sobre Moçambique, a sua história passada, desde o tempo do Shaka Zulu, a fauna, a flora e o artesanato… É bastante enriquecedor!

Da parte da manhã, além das lidas domésticas (arrumação da casa, lavar roupa, etc.), dou uma hora de explicação à 5.ª classe; de tarde, dou explicação à 4.ª classe e ao aluno da 6.ª classe. Depois do lanche, das 17h às 18h30, fico com as classes que estão a desenvolver o Projecto APRENDER/FAZENDO. As crianças aprendem a manejar a agulha. À 2.ª feira, tenho a 2.ª classe e assim sucessivamente, até que à 6.ª feira tenho o aluno da 6.ª classe com os da 1.ª. Noto que eles estão a gostar muito do Projecto. Alguns rapazes estão a superar as minhas expectativas. Isto está a ser enriquecedor para eles, e para mim nem se fala, pois há muito não fazia tal… Já preguei fechos em calças, cozi calças, remendei, vestidos, etc. Não me lembro de ter feito remendos destes à roupa dos meus filhos… Nessa altura trabalhava e o tempo não era tanto assim. Mas agora estou surpreendida com os resultados. Eu peço ao meu anjinho costureiro, que venha em meu auxílio, e eu tenho certeza de que ele faz as coisas… Eu sou somente a executante dele…

Também ensinei a limpar o canil e a recolher o lixo… Isto não tem só a ver com o meio ambiente. Nunca me esqueço que fui escuteira. Fica-nos no sangue.

As nossas crianças, são assistidas gratuitamente no Hospital da Bela Vista, a cerca de 7 quilómetros. Há tratamentos de estomatologia e saúde oral; fazem-se testes para ver quem tem SIDA. Os adultos vão às consultas e vêm de lá com toda a medicação necessária por 5 meticais, o que é uma ninharia, comparativamente ao euro, bem como com análises. Já passei por essa situação por causa da malária e fiquei espantada com a eficiência e baixo custo do tratamento.

Também dou catequese à 1.ª fase, coisa que já não fazia há muito. Mais uma vez, é muito enriquecedor. Eles correm para a aula de catequese, pois estão sedentos de ouvir falar de JESUS!

Estive em Maputo com a Irmã Vitória na festa do Dia de Portugal. A Comunidade Portuguesa esteve reunida no Restaurante Serra da Estrela, que ofertou todo o ganho à missão. Afinal, ainda há pessoas com um coração grande. Disponibilizam empregados, cozinheiro e todos os ingredientes para nós, Missão de São Roque, usufruirmos. Recebemos sem quaisquer custos.

A Irmã Vitória foi entrevistada por duas televisões, uma moçambicana e a nossa RTP/ÁFRICA. Contactei depois a produtora da RTP/Praça da Alegria, Isabel Roma, que me disse que iria falar com os responsáveis e pode ser que um dia a RTP nos visite na missão. Nessa altura vamos fazer alguns pedidos, nomeadamente um novo meio de transporte. Pode ser que alguém fique sensibilizado.

A Cônsul Portuguesa, uma senhora extremamente dinâmica, tomou conhecimento da nossa Missão e prometeu visitar-nos também. A missão é apoiada pela Ordem dos Carmelitas Descalços em Portugal e por um grupo de amigos espanhóis, que contribui com apadrinhamentos de crianças, verbas para alimentação e outros bens. A missão precisa de obras e melhoramentos nos dormitórios e não só. Temos apenas uma carrinha Toyota, que já não é nova e que tem um desgaste muito grande. É insuficiente para as muitas viagens que é necessário fazer a Maputo (90 km de terra batida), de modo a abastecerem-se para alimentar as 38 crianças. De vez em quando avaria e ficamos sem transporte. Uma nova seria uma grande obra de caridade.