Cinquenta anos do I Congresso Republicano comemorados com o pensamento no centenário da República

Governador Civil sugere a realização de um IV Congresso Republicano.

Vital Moreira insiste na educação cívica na escola pública e diz que a laicidade está por completar

Nas comemorações do cinquentenário do I Congresso Republicano, Filipe Neto Brandão, governador civil de Aveiro, propôs a realização de um IV Congresso (os outros dois foram em 1969 e 1973) – desta vez “sem necessidade de pedir autorização ao governador civil”, adiantou, em tom de graça. A proposta foi feita no sábado, 6 de Outubro, no Teatro Aveirense, o mesmo palco em que há 50 anos decorreu o congresso. “Homens livres reuniram-se para celebrar a liberdade”, resumiu Neto Brandão.

Na sessão do passado sábado, além do governador civil, intervieram Élio Maia, presidente do município, Vital Moreira, por ter presidido a uma comissão preparatória do Centenário da República, a celebrar em 2010, e Jorge Lacão, secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros.

Élio Maia lembrou que Mário Sacramento, Manuel das Neves e João Sarabando, principais impulsionadores do congresso, “deram voz ao pensamento encarcerado pelo poder” e, para justificar a ligação de Aveiro à liberdade, afirmou que “as terras temperam o carácter dos homens”. “Os aveirenses fazem-se de marés, de ventos indomáveis, de voos livres, de horizontes a perder de vista”, disse.

Laicidade por completar

Vital Moreira afirmou que “a República tem futuro e o futuro do país só pode estar na República” e apontou cinco linhas de força para realçar nas comemorações do centenário: a ideia republicana de poder; a cidadania republicana; a escola pública; a ética republicana; e a laicidade.

O constitucionalista de Coimbra considerou que a escola pública é a “instituição central” para a “libertação do atavismo”, para “a igualdade de oportunidades”, para a “emancipação pessoal”. Afirmou que, neste campo, “os ideais republicanos estão por cumprir” e que é necessária “educação cívica nos currículos”. Por outro lado, considerou que “permanecem na vida pública várias infracções à laicidade”, como sejam os “crucifixos nas escolas”, os “actos religiosos por encomenda do Estado” e a assunção pelo Estado de missões próprias das religiões. A laicidade é “ainda tarefa por completar”, disse.

Jorge Lacão, alertando para o perigo de perda de memória colec-tiva nas “areias do esquecimento”, reforçou que as comemorações do centenário da República devem “imbuir as gerações futuras de um quadro de ética republicana”; vão ter uma “forte componente educativa e pedagógica”. O Secretário de Estado lembrou que o congresso de Aveiro deixou “um modelo cívico de resistência através das ideias”, “mais do que conspirar formas de derrubar o regime”, mas centrou a sua comunicação nas próximas comemorações. O Centenário da República terá uma comissão de honra encabeçada pelo Presidente da República e uma comissão consultiva com figuras de “mérito e relevância cívica”. Haverá exposições, selos comemorativos, iniciativas festivas de carácter popular e uma intervenção urbanística que constituirá uma “marca física para o futuro”.

A sessão solene terminou com o Hino da República, tocado pela Banda Velha Sanjoanense (de São João de Loure, Albergaria), que há cinquenta anos havia igualmente concluído os trabalhos do I Congresso Republicano de Aveiro.