Direitos Humanos “Pa’ una ciudad del norte
Yo me fui a trabajar
Mi vida la dejé
Entre Ceuta y Gibraltar”
Manu Chao
Estou em pleno tempo de férias. Caminhadas, passeios de bicicleta, algumas leituras ao som de outras músicas… enfim, acho que me deixei levar pelo “dolce fare niente”. Sentei-me um pouco em frente à televisão. Finalmente teria hipótese de assistir, no horário agendado, ao programa “Solidários”, que semanalmente destaca o trabalho das várias ONGs que actuam na Andaluzia espanhola…
… E então começo a acordar! Hoje o programa trata sobre a situação no litoral andaluz. Não, não é um destaque sobre as movimentadas praias da Costa del Sol, antes é mais uma descrição vivida do drama dos imigrantes que tentam chegar, clandestinamente, ao “el dorado” que é a Espanha, sonho da tão desejada “vida melhor” e, quem sabe, porta para a “terra das oportunidades” que é a União Europeia.
À banda sonora da reportagem não lhe falta sequer a música “Cladestino” de Manu Chão, voz musical do movimento “alter-globalização” e presença regular em alguns dos nossos mediáticos festivais de Verão. Mas o que aqui se descreve, longe dos alienantes ritmos estivais, é a dura realidade de quem deixa a vida “entre Ceuta e Gibraltar”. Paradigma, aliás, de tantos outros dramas que têm por origem o Norte de África ou ainda a mais longínqua África subsariana e que terminam nas costas espanholas do Mediterrâneo, de Valência a Algeciras, ou quem sabe ao largo das Ilhas Canárias. Tudo isto na melhor das hipóteses, uma vez que outros não têm a mesma sorte e acabam por morrer no mar, vítimas de naufrágios, de doenças ou da tão temida desidratação. Só no primeiro semestre de 2007, as estimativas oficiais lançam o número para cima de 10 mil dos imigrantes clandestinos que já tentaram a travessia!
Perante estes dados, acordo definitivamente. Sabia que o problema era grave, só não imaginava que tivesse estas proporções. E, contudo, o governo espanhol diz que desde o ano passado a “cooperação com as autoridades do Magreb” conseguiu reduzir para menos de 1/3 aqueles dados!
São números que se contam aos milhares; porém o programa alerta que há que contar ainda com as centenas que tentam a sorte por terra, saltando a vedação de arame farpado que marca a fronteira entre Marrocos e a cidade de Melilla, autonomia espanhola em solo africano.
Em qualquer dos casos, é impossível não admirar o notável trabalho de entidades não-governamentais, com especial destaque para a Cruz Vermelha espanhola. A elas cabe a tarefa de acolher os que chegam, verificar a sua saúde, curar as feridas ou, em inúmeros casos, constatar os óbitos e enterrar os mortos. Seguidamente, os imigrantes são entregues às autoridades policiais que os encerram em centros de abrigo onde têm acesso a banho, comida, roupa, cama e nos quais ficam de quarentena. Finalizados esses 40 dias, a ordem de extradição é emitida. Aqui começa um novo desafio: repatriar os imigrantes. Sem papéis, sem documentos que indiquem a origem dos imigrantes, fica difícil saber para onde é que eles deverão ser expulsos. E a crueldade da situação ainda é maior quando se trata dos imigrantes subsarianos que chegam às Canárias. Viajam em “cayucos” ou “pateras” – pequenas embarcações típicas africanas – apinhadas de sem-papéis, a maioria dos quais nem sequer fala a mesma língua. Muitos foram “enfiados” em barcaças, nas praias da Mauritânia, contudo podem ser oriundos não só desse país, como também do Senegal, da Gambia, do Mali ou até das duas Guiné! Repatriados para a Mauritânia, as autoridades de Nouakchott recusam-se a recebê-los alegando que grande parte deles “não são cidadãos mauritanos”. Então, recomeça o ciclo. Apátridas, fogem e ficam clandestinos até conseguirem de novo dinheiro para pagarem aos passadores e se aventurarem, novamente no mar, onde uns virão, eventualmente, a morrer, num calvário que não parece ter fim…
Termina o programa de TV. Estou em férias, acho que não me vou alongar em reflexões sobre as causas de tudo isto. Iria demorar-me a pensar numa Europa Ocidental que se entricheira, qual fortaleza, a cada dia, quando o grande problema reside no sistema económico excludente, do qual ela é uma das mais acérrimas defensoras e que empobrece, cada vez mais, os países pobres.
Não continuo… assim mesmo, acho que vou ter dificuldade em adormecer. Mas ainda bem! Porque, mesmo em férias, há histórias que não nos podem deixar dormir descansados.
