Começar. De novo

Testemunho de experiência missionária A pergunta, aparentemente simples, ecoou em mim de uma maneira invulgar: E então, já decidiram qual vai ser o vosso padroeiro? Pelos minutos seguintes resumiram-se os argumentos que tinham, naquela comunidade, domi-nado a negociação do último mês. Eu estava presente mas invisível, cada sentido tão absorto no ambiente em volta, que quase deixei de existir. Não é todos os dias que nos é permitido testemunhar conversas que, pensava eu, haviam deixado de se ter há mais de mil anos. Ali começava mais uma comunidade ribeirinha a viver a sua fé, a construir a sua Igreja.

Lá, nas margens do rio Madeira, no miolo do Brasil, ainda hoje, tudo são começos: Começa a chuva que, destruindo as plantações de mandioca, traz a cada ano nova terra fértil, para se começar de novo. Começa a povoar-se o Km180 da estrada transamazónica, há poucos anos apenas mais um lugar da selva, hoje fonte de esperança de tantas famílias do Sul que deixaram tudo para viver esta oportunidade. Começam a organizar-se comunidades que, com o desenvolvimento que chega ao Brasil querem, também elas, participar, contribuir e beneficiar dessas novas oportunidades. Começa algo de maravilhoso com cada criança que nasce e cresce por lá. Única no meio de tantas, também ela a aprender a viver estes ciclos sempre repetidos, com um sorriso tão transparente e confiante que, por instantes temos a certeza que é realmente ela que traz alguma coisa de novo e de melhor, senão a todos, pelo menos a alguns. A nós.

Testemunhar tudo isto em missão, este viver a vida a cada momento foi, para mim, o sinal: Não há um princípio seguido de eternas segundas oportunidades! Tudo são começos, primeiras oportunidades em que a cada passo, um novo Eu, recém-chegado, descobre que afinal apeou-se nas partidas e já o chamam pelo nome para seguir em frente.

De um mês de missão traz-se sempre mais do que se leva. Tão habituados a sermos mais um ou uma no meio de tudo e de todos, de sermos reduzidos a uma habilitação literária ou a um apelido, desapren-demos o valor que tem umas mãos, um olhar, uma disponibilidade. O que se traz, ou que eu trouxe, foi um corpo novo. As mesmas mãos, mas úteis, os mesmos olhos, mas atentos, a mesma consciência, mas mais consequente. Também eu me sinto começar, fresco, novo, renovado.

Sou o mesmo, mas não sou igual, vivo sob um outro signo que se vai revelando. E assim, dentro de mim esgrimem-se argumentos para a questão de sempre que outra vez ganha mais força:

– E agora, que começo, qual vai ser o meu padroeiro?

António Francisco Moreira dos Santos, 34 anos, doutorado em Ciências dos Materiais pela U.C. Santa Barbara, Califórnia, e bolseiro de pós-doutoramento no Departamento de Física da Universidade de Aveiro. Esteve este Verão em experiência missionária no Brasil.