A República chegou a Aveiro no dia 6 de Outubro. Foi acolhida com festa. Havia na cidade diversos núcleos republicanos.
O dia 5 de Outubro de 1910, uma quarta-feira, em Aveiro, foi um dia como os outros. Nada de especial aconteceu. A notícia da implantação da República só chegou no dia seguinte. E o povo saiu à rua.
Monsenhor João Gaspar, padre e historiador, por estes dias tem falado em vários sítios sobre os acontecimentos de há cem anos. Nos apontamentos que facultou a este jornal, afirma: “Estabelecida a República durante a madrugada [do dia 5, em Lisboa], a notícia chegou a Aveiro, primeiro duvidosa, mas depois, no dia seguinte, totalmente certa. Os meios de comunicação não eram como os de hoje e o corte das linhas telefónicas dificultava as informações de Lisboa”.
Antecedentes republicanos
Cidade com algumas tradições liberais, Aveiro tinha antecedentes republicanos. Em 1881, Francisco Manuel Homem Christo (1860-1943), maçon que viria a romper com a organização secreta e seria um dos apoiantes da restauração da Diocese de Aveiro, funda o Centro Eleitoral Republicano Aveirense. E no jornal “O Povo de Aveiro”, que lança no ano seguinte, “orientar-se-ia por essa parcialidade ideológica”, segundo expressão de Mons. João Gaspar. Ligado a Aveiro está também Sebastião de Magalhães Lima, o caixeiro-viajante da República, como escreveu Cardoso Ferreira na semana passada, neste jornal. Não era aveirense por nascimento, mas sim pela ascendência paterna, que era da vila de Eixo. “Ele e Homem Cristo – afirma Mons. João Gaspar – eram amigos; mas as vicissitudes da política acabariam por afastá-los, às vezes com choques violentos e palavras desabridas”.
Na cidade dos canais, ainda no tempo da monarquia, houve mais três organizações republicanas: o Comité Revolucionário de Aveiro, a Comissão Municipal Republicana e o Centro Escolar Republicano. A primeira foi criada antes da gorada revolução portuense de 31 de Janeiro de 1891. Devia proclamar a República após o grito da revolta a soltar na “Cidade Invicta”. A segunda existiu por volta de 1900 e 1901. A terceira e mais importante foi inaugurada no primeiro trimestre de 1909 por Manuel de Arriaga, futuro presidente da República. O Centro Escolar Republicano estava instalado numa casa no topo da Rua José Estêvão e organizava conferências e palestras. Presume-se que os seus líderes estavam a par da preparação do 5 de Outubro e sabe-se que guardavam armas numa casa de Oliveirinha que pertencia à família de José Luciano de Castro, ministro e figura maior da monarquia constitucional.
Dia 5 pacato, dia 6 com “vivas!”
Perante este ambiente, se no dia 5 de Outubro, por desconhecimento dos factos ocorridos na capital, “o berço da liberdade chamado não se manifestou, não veio à rua de armas na mão, e, defesa ou das velhas instituições ou da causa da República”, como escreveu o “Campeão das Províncias” de 8 de Outubro de 1910, no dia seguinte o povo saudou efusivamente o novo regime. Escreve Mons. João Gaspar: “Conhecendo-se em Aveiro o desfecho favorável da implantação da República quando dealbava o dia 6, a população exteriorizou-se em grande o entusiasmo, que se espalhou pelas ruas e praças da cidade”. O reconhecimento público da implantação deu-se no edifício dos Paços do Concelho, “onde a bandeira vermelha e verde – a do Centro Escolar Republicano – foi solenemente hasteada às três horas da tarde pelo dr. André João dos Reis, entre as aclamações calorosas do povo, os aplausos dos adeptos dos ideais triunfantes e os acordes musicais de «A Portuguesa», executados pela Banda Amizade”. Seguiram-se manifestações e cortejos pela cidade. “Nessa mesma ocasião – adianta Mons. João Gaspar –, arbitrariamente tomou posse da Câmara Municipal o Comité Revolucionário de Aveiro, que apenas se manteve em funções até ao dia 9 seguinte”. O primeiro acto solene do município teve nesse dia, pelas 13h. Tratou-se de dar posse aos vogais efectivos da Comissão Administrativa do Concelho de Aveiro.
Os primeiros anos da República foram, para a Igreja, tempos de dificuldade por perda de bens e de liberdade de acção. Não uma separação deste tipo que pretendia. Em Aveiro, tanto quando se pode saber, as perdas não foram tão sentidas como noutros locais, não só porque não era sede de diocese (só seria restaurada em 1938), mas também porque os grandes edifícios religiosos como o Convento de S. Domingos (Museu de Aveiro) e o Convento Madre Deus (Quartel de Sá) já haviam sido tomados pelo Estado respectivamente em 1870 (morte da última religiosa) e em 1890 (por cedência do Bispo de Coimbra). Já ao nível da prática pastoral, o anticlericalismo do novo regime notou-se, por exemplo, na proibição da leitura de documentos dos bispos portugueses nas igrejas – o que levou à prisão de bispos e padres, mas também obrigou o clero à procura de soluções criativas. Conta Mons. João Gaspar que o P.e Manuel Ferreira da Costa, natural do Préstimo (Águeda), perante a proibição, seguiu uma estratégia original: “É proibido ler, mas não dizer”. Decorou o documento do episcopado e declamou-o ao povo.
J.P.F.
