Edição especial da Agência Ecclesia assinala centenário da República. Grandes temas: “Sociedade e Religião”; “Relação Igrejas, Estado e Sociedade”; e Universos Espirituais e experiências religiosas”.
A implantação da República, a 5 de Outubro de 1910, foi um ponto de viragem para a Igreja Católica em Portugal, tendo levado a uma “recomposição interna” destinada a enfrentar um “programa intencional de laicização”.
A posição é assumida pelo historiador António Matos Ferreira, um dos coordenadores da edição especial do semanário Agência Ecclesia que assinala as comemorações deste centenário.
A publicação conta com a colaboração científica do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR) da Universidade Católica Portuguesa e procura abordar “questões do âmbito da religião na sociedade portuguesa no período da Primeira República”.
“A reflexão que se apresenta, acompanhada pela publicação de documentos da época e do levantamento iconográfico e biográfico referentes a acontecimentos e personalidades anteriores e posteriores à República de 1910, pretende contribuir para a memória crítica dos cidadãos portugueses”, escreve Matos Ferreira.
A edição foi apresentada no final das Jornadas Nacionais de Comunicação Social, uma iniciativa anual que desta feita tem como título “República-Comunicação-Igreja”, que decorreram em Fátima, nos dias 23 e 24 de Setembro.
A chamada “questão religiosa” é apreciada para lá da alteração do estatuto da Igreja Católica nas suas relações com o Estado, na sua forma “republicana, laica e de separação”, frisa Matos Ferreira.
Rita Mendonça Leite, também coordenadora da publicação, indica que “a Lei da Separação das Igrejas do Estado representou um momento fundamental na acção do novo regime”.
Para o historiador Sérgio Pinto, o Decreto de 20 de Abril de 1911 é de “difícil aceitação”, do ponto de vista doutrinal, por parte da hierarquia católica. “As características da lei” que em Portugal decretou a separação, “vista pela Igreja Católica como hostil e atentatória da sua acção, acabarão por marcar um ponto de viragem”, escreve.
Hugo Dores precisa que “a Igreja se opunha àquela lei da separação, não ao conceito de separação que, há muito, vozes do catolicismo exigiam”.
De acordo com Tiago Apolinário Baltazar, por outro lado, a questão religiosa assume “uma importância fundamental para a própria sobrevivência do regime”. “Para «republicanizar» o país era preciso, pois, atacar a Igreja e, em casos extremos, o próprio catolicismo, vistos (…) como origem do todos os atrasos e misérias”, indica o historiador.
Fátima e I Guerra Mundial
Ao longo desta edição especial é sublinhada a importância da entrada de Portugal na I Guerra Mundial, a qual permitiu, segundo Guilherme Sampaio, “um redimensionamento do papel do catolicismo na sociedade portuguesa”.
A isso somam-se os acontecimentos da Cova da Iria, em 1917, analisados por Tiago Apolinário Baltazar: “De certa forma, é através de Fátima que o catolicismo português se reencontrará consigo próprio”.
A publicação estrutura-se em torno de três áreas temáticas: “Sociedade e Religião”, “Relação Igrejas, Estado e Sociedade” e “Universos Espirituais e experiências religiosas”.
“O carácter messiânico da República, enquanto projecto de regeneração nacional, acabaria por degenerar num sentimento de desilusão e frustração partilhado pelos universos político e religioso”, observa Rita Mendonça Leite.
No editorial da edição especial para o 5 de Outubro, o cónego António Rego, director do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja, assinala que “a República não é uma data única. É um rasto de tempo num pequeno espaço chamado Portugal”.
A revista pode ser pedida para agencia@ecclesia.pt.
Octávio Carmo
