O Leitor pergunta – 2ª parte O pecado é, antes de mais, uma ofensa a Deus, uma ruptura de comunhão com Ele. Mas, ao mesmo tempo, é um atentado contra a comunhão eclesial. É por isso que, para haver verdadeira conversão, isto é, mudança de vida, para irmos deixando uma vida de pecado habitual, para vivermos em estado de graça divina, temos necessidade de nos reconciliar com Deus e com a Igreja. Isto exprime-se e realiza-se, liturgicamente, no sacramento da Penitência e Reconciliação, celebrado junto de um padre ou bispo (cf. CCE 1440).
As primeiras comunidades cristãs constataram, com estupefacção, a força sugestiva que tinha o espírito do mundo sobre elas. Mesmo depois do Baptismo, este espírito e a tradicionalmente chamada concupiscência – inclinação para o mal – que permanece nos baptizados, tentavam os irmãos e as irmãs e faziam-nos afastar do caminho cristão, já percorrido até aí (cf. CCE 1426). Para responder a este desafio, a Igreja nascente sentiu necessidade de um segundo Baptismo regenerador, ao qual foi dado o nome de sacramento da Penitência. Esta segunda oportunidade, que se oferecia a todos os crentes que se afastavam do projecto cristão de uma forma notória, encontrava o seu fundamento na atitude de Jesus para com os pecadores arrependidos (cf. Mc 2,5.17; Jo 8,1-11; Lc 7,37-50).
A autoridade que Jesus possui para libertar do pecado transmite-a à Igreja, tornando-a portadora de reconciliação. No dia da sua ressurreição, como para significar que a confissão é uma espécie de ressurreição espiritual do pecador, Jesus apareceu no meio dos discípulos e, mostrando-lhes as mãos e o seu lado chagados, disse-lhes: «A paz esteja convosco. Assim como meu Pai me enviou, eu vos envio a vós.» “Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos»” (Jo 20,22-23; cf. Mt 28, 20).
Esta reconciliação ou acolhimento dos que pecaram exerce-se na comunidade cristã, através de uma praxis curativa. Aqueles e aquelas que se afastaram do caminho de Jesus devem realizar um esforço manifesto de conversão, para que a reconciliação seja efectiva. Isto é expresso nos textos bíblicos seguintes: 1 Cor, 5,1-11; Mt 18,15-18.
O sacramento da Penitência tem um papel relevante na vida da Igreja. Esta está consciente de que Jesus Cristo lhe confiou, na pessoa dos apóstolos e dos seus sucessores, o poder de perdoar os pecados. Por isso, sempre viu neste sacramento um sinal do perdão de Deus. Esta dimensão eclesial da Penitência expressa-se, sobretudo, nas palavras de Jesus a Pedro: “Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus; tudo o que ligares na terra ficará ligado nos céus e tudo o que desligares na terra ficará desligado nos céus” (Mt 16,19). Reconciliar-se com a comunidade cristã pelo sacramento da Penitência é o caminho mais curto da reconciliação com Deus. Este aspecto expressa-se, perfeitamente, com a penitência pública da Igreja antiga. Por esta razão, na absolvição sacramental, obrigatória desde o ano de 1975, diz-se: “Deus Pai misericordioso (…) te conceda pelo ministério da Igreja, o perdão e a paz” (cf. CCE 1443-1445).
O sacramento da Penitência tem uma história extensa e complexa, em que se deram múltiplas mudanças e formas diversas de celebração (cf. CCE 1447).
Deolinda Serralheiro
(continua)
