Conferência Friedrich von Hügel (1852-1925), um alemão convertido ao catolicismo, numa das suas cartas, fala da necessidade de tornar a igreja “intelectualmente habitável”, isto é, uma Igreja em que as pessoas se sintam confortáveis, “como em sua casa”, nas questões da cultura. A expressão foi adaptada, pelo teólogo moralista Auer, para “eticamente habitável”. Esse teólogo alemão, de Tubinga (universidade alemã das mais conceituadas na área da Teologia), ao passarem dez anos sobre a publicação da encíclica de João Paulo II acerca dos princípios da vida moral, a “Veritatis Splendor” (“O Esplendor da verdade”, de 1993), escreveu um curioso ensaio que serviu de núcleo à comunicação do padre e médico de Lisboa José Manuel Pereira de Almeida, na noite de 18 e na manhã de 19 de Fevereiro, no Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro.
Se a resposta à pergunta-título da palestra “A Igreja ainda é eticamente habitável?” fosse “não”, isso seria um “murro no estômago”, disse o conferencista à assembleia maioritariamente constituída por estudantes de Teologia ou de Ciências Religiosas. No entanto, há uma mentalidade que vai ganhando adeptos que diz que é cada vez mais difícil cumprir as normas éticas propostas pela Igreja, principalmente no campo da sexualidade. Por outras palavras, há quem diga que a Igreja está a tornar-se “eticamente inabitável”. O caso mais recente, relatado pelo Pe Pereira de Almeida, deu-se na Espanha, onde um bispo referiu a possibilidade do uso do preservativo no combate à Sida e isso foi tomado como uma grande abertura da Igreja. De imediato, se levantaram algumas vozes a dizer que a Igreja não cedia nem um centímetro na sua condenação desse uso; e lá apareceu o rótulo do “eticamente inabitável”. Pelo meio, dois erros graves: a deturpação das palavras iniciais do bispo, e o esquecimento da doutrina tradicional da Igreja. Deturpação, porque essas palavras surgiam no contexto de um grande estudo da revista médica especializada “The Lancet”, que dizia que a melhor estratégia no combate à Sida é a “estratégia ABC”: abstinência, fidelidade, preservativo (Abstinence, Be faithful, Condom, em inglês). Esquecimento, porque a Igreja tem na sua tradição o princípio do “mal menor e bem maior”. Este princípio afirma que, nos casos de “consciência perplexa”, para evitar um mal maior, admita-se um mal menor. Aplicando ao caso do preservativo, se não há abstinência, se não há fidelidade, então use-se o preservativo, em vez de pôr a vida de alguém em perigo, por causa do contágio do vírus da Sida. Ora, os meios de comunicação social, dizendo que a Igreja já permitia o preservativo, deturparam as palavras do bispo espanhol. Enquanto alguns clérigos, condenando o uso do preservativo em qualquer circunstância, entraram no “fundamentalismo imisericordioso”, nas palavras do jesuíta espanhol González Faus.
Que elementos sustentam, então, a atmosfera de habitabilidade ética da Igreja? O sacerdote de Lisboa apontou três. 1) A Igreja é habitável, porque transmite um horizonte de conceitos, uma compreensão global, na qual se pode viver e morrer; 2) A Igreja apresenta modelos que vivem os seus princípios, ainda que com críticas; 3) A Igreja agrupa e reagrupa os seres humanos para a solene celebração deste viver. Por outras palavras: as propostas são para todos, para toda a vida e em toda a parte; é possível viver essas propostas; muitos vivem-nas e celebram-nas.
Neste contexto, não se pode esquecer a função do Magistério – Papa e Bispos, que têm o papel da salvaguarda das normas morais da Igreja. Muitas vezes considerado o “mau da fita”, o Magistério não é monolítico (há pluralidade), progride e entra em diálogo. Se, ao falar para toda a Igreja, sublinhar uma ética estática (de ordens – a que é acusada de tornar difícil a habitação na Igreja), tem de ser contrabalan-çado pela “suave força” e “humilde determinação” dos teólogos e escolas de teologia. Daí que o padre José Manuel Pereira de Almeida deixasse um apelo ao ISCRA: “Uma escola como esta tem grandes responsabilidades: tornar ainda mais habitável a Igreja que todos somos”.
J.P.F.
