Competitividade egoísta

Questões Sociais «É necessário alterar o actual paradigma económico»; isto vem sendo afirmado por toda a parte. Em termos sumários, pode afirmar-se que o paradigma vigente se baseia no egoísmo, e se traduz numa competitividade desenfreada, com modalidades «ascendentes» e «descendentes». As primeiras, observadas na generalidade das pessoas, empresas e grupos sociais, consistem na procura permanente de mais rendimento e mais poder; abandonam, em maior ou menor grau, quem dispõe de menor poder competitivo e, daí, os pobres e os excluídos. As modalidades «descendentes», que provêm dos mercados e dos Estados, consistem na distribuição de oportunidades e rendimentos: os mercados favorecem, «por natureza», as empresas com produções mais competitivas; e os Estados distribuem mais recursos pelas mais competitivas na apresentação de candidaturas e pelas consideradas «estratégicas». A solidariedade social, pública e privada, esforça-se por compensar tudo isto, mas não pode alterar as tendências de fundo; estas vão no sentido de «dar» mais a quem mais tem, na expectativa (?) de que os mais pobres venham a beneficiar um pouco, ao menos por tabela ou pelo acesso às migalhas que forem caindo.

As reacções à actual crise estão a reproduzir perfeitamente o mesmo paradigma (estou a escrever no dia 13 de Dezembro): são apoiadas prioritariamente as instituições bancárias, seguem-se-lhes outros «sectores estratégicos», tais como o do automóvel, depois virá mais um ou outro, e também hão-de ser contemplados os profissionais «aristocratas»; em contrapartida, a grande maioria das actividades económicas, sobretudo as mais frágeis, e dos trabalhadores, deverá bastar-se a si própria. Não faltarão, naturalmente, alguns novos apoios sociais; estes, porém, serão marcados pela insuficiência e pela injustiça: insuficiência, porque não satisfazem cabalmente os beneficiários; injustiça, porque não abrangem, com equidade, todas as pessoas e famílias que se encontram nas mesmas condições.

Não temos o direito de pôr em causa a boa intenção da grande maioria das autoridades e peritos que vão defendendo estas «soluções»; temos, sim, que reconhecer o enorme atraso ético-económico em que ainda nos encontramos. Forçoso é também reconhecermos que, salvo honrosas excepções, pouco temos feito para que o paradigma dominante seja efectivamente alterado; cada um de nós cuida da sua vida, acima de tudo, na expectativa de que a «mão invisível» da economia e a aplicação dos «nossos impostos» venham a deixar «tranquilas» as nossas consciências. Neste contexto, não basta aos católicos a excelência da sua doutrina social; é necessário conhecê-la, inseri-la nas «realidades terrestres» e desbravar caminhos mais justos e mais humanos, a partir da experiência. Caminhos de verdadeira cooperação personalista, em termos económicos e sociais. (Continua)