Questões Sociais Existe em Portugal uma prática regular de concertação político-social digna de apreço. Verificam-se entendimentos frequentes na Assembleia da República, sobretudo nas comissões especializadas. Nessa mesma sede, pratica-se diariamente o diálogo, por vezes exaltado, na procura de entendimentos e de soluções. O mesmo acontece nas autarquias locais e na Comissão Permanente de Concertação Social, onde têm assento representantes das centrais sindicais e das confederações patronais. Também não podemos esquecer todo o labor da negociação colectiva, entre representantes de entidades patronais e sindicais, sem luzes de ribalta. E merece todo o apreço, apesar de algumas injustiças, a cooperação registada na imensa maioria das empresas, entre empresários e trabalhadores; por vezes, nem se recorre a muitas palavras…Inúmeros outros exemplos se poderiam apresentar.
Mesmo assim, a sociedade portuguesa apresenta-se extremamente dividida, pelo menos ao nível das posições mediatizadas. A concepção de democracia está longe de ser unânime: enquanto algumas correntes aceitam a democracia representativa, sem prejuízo de melhorias, não falta quem defenda outras posições; entre estas realçam-se a democracia participativa (podendo ou não conviver com a representativa), a de «braço no ar», a de rua e sublevação (traduzida em manifestações frequentes, desobediência civil, perturbações da ordem pública, golpes de Estado…). No que respeita ao sistema económico, muitas correntes aceitam a economia de mercado, mais ou menos capitalista, enquanto outras preferem uma economia colectivista; algumas entendem que as dívidas do país devem ser pagas, e outras defendem o contrário. Na temática da vida humana, as divisões chegaram a tal ponto que deram origem à designação «questões fracturantes»; tal é o caso das respeitantes à interrupção voluntária da gravidez, ao casamento, à reprodução humana, à adopção, à eutanásia…
Estas divisões extremas vêm alimentando uma guerra civil latente, com assomos quase diários. A propensão para tal guerra poderia ser contrariada se, porventura, o diálogo e a concertação se praticassem em todos os domínios, a todos os níveis (local, regional e nacional) e sem desistência. Infelizmente, porém, isso não se conseguiu até agora, apesar das interpelações da crise; nem sequer dentro do laicado cristão.
