O maior desafio da Igreja é o de ser desafio

Com um sentido profético de oportunidade, com a sabedoria de quem ainda tenta acordar as mentes adormecidas, D. António Marcelino, Bispo emérito de Aveiro, lançou para a mesa da discussão pública a interrogação sobre qual seria o maior desafio feito à Igreja (ver CV de 19 de Outubro de 2011).

Senti-me interpelado pela inquietação e desafiado, eu próprio, a encontrar resposta que não se ficasse pelas manifestações mais ou menos efémeras e da moda. Subscrevo, em absoluto, a convicção de que as múltiplas dificuldades habitualmente apontadas como sendo os principais desafios da Igreja denunciam algo mais inquietante. E foi em busca desse fundo que me decidi a partilhar reflexão e a juntar-me a outras vozes que, espero, sintam a mesma inquietação.

A Igreja não existe para si mesma, nem vive de si mesma. Existe para a salvação do mundo e por chamamento do Mestre. Todo o desafio que se lhe colocará resultará, fundamentalmente, destes dois vectores.

A sua condição de presença da salvação no mundo e para o mundo interpela-a a ser uma voz incómoda, capaz de lançar o olhar para a distância, num horizonte que não se esgota na neblina do imediato e do presente, o que se constitui, à partida, como desafio da fidelidade, não primeiramente a um passado, mas muito mais a um futuro, horizonte da salvação definitiva. Formulado deste modo, este desafio poderá ser consubstanciado na ideia de que o primeiro grande desafio da Igreja será o de saber aumentar o peso do futuro em relação ao peso do passado. Do passado deverá ser guardada a memória da identidade. Do futuro deverá, contudo, ser recolhida a força da esperança.

Mas recuperemos a ideia de que a Igreja tem como condição identitária a de ser salvação no e para o mundo.

«Deus criou o homem sem ele, mas não o salva sem ele». Sendo o núcleo da missão da Igreja a manifestação, na história, da salvação proposta por Deus aos homens, a Igreja não pode bastar-se em proclamar. Ser-lhe-á necessário o interlocutor, alguém que acolha a proposta. E aqui radica, em meu entender, o núcleo mais desafiante para a Igreja. Na verdade, o século XIX acusara a religião, em geral, e o cristianismo, em particular, de alienar o ser humano, de o levar a atribuir a Deus capacidades que, afinal, eram suas. Curiosamente, porém, aquilo a que assistimos, após a tentativa de arruinar a religião, não foi à emergência do ser humano, mas à sua verdadeira alienação. O homem está reduzido a um objecto biológico, a uma peça da estrutura colectiva, a um ente sem subjectividade. O homem deixou de ser homem. E o mais dramático é que a sociedade parece não se preocupar com isso. Vivemos uma alienação anestesiada e anestesiante. O homem parece ter morrido, mas não se preocupar com isso. Ora, para alguém que deixou de se perguntar pelo sentido da sua vida, pelo sentido do sofrimento, pelo sentido da protecção dos mais frágeis, falar de salvação parece cacofonia. É linguagem sem significado, “flactus vocis”, como diziam os nominalistas, na fase decadente da Idade Média.

Bento XVI tem dito isto de outro modo, ao referir-se, com a frequência de um “leit-motiv” (como se fosse um tema musical identificador recorrente), ao problema do relativismo. O relativismo não é só grave por nivelar a verdade e a opinião, mas porque conduziu à desistência do homem em relação a algo maior. O homem parece ter desistido.

E o desafio da Igreja está em despertá-lo deste torpor mortal que parece satisfazê-lo, mas que o aliena de si, o afasta da sua própria natureza.

À Igreja caberá, neste contexto, saber usar de uma espécie de maiêutica socrática que faça acordar em cada um o desejo de ver a Deus que é garantia de permanência do humano. Como diz Sartori, em outro contexto, é o próprio “homo sapiens” que está em risco se não acordarmos. Pois, na minha perspectiva, é difícil perceber o que está primeiro: se o homem peca porque está perdido ou se está perdido porque peca. Na verdade, se não despertar para a necessidade da salvação, jamais se saberá capaz de algo maior. Os teólogos da moral vêm recordando isto quando referem que a moral Paulina é a moral do indicativo: a consciência moral emerge de se saber chamado a algo maior. O desafio da Igreja estará em saber-se capaz de despertar o humano que há em cada um, porque despertá-lo é ousar elevá-lo.

As palavras poderão parecer barrocas, mas o núcleo deve ser claro: para um homem à deriva que não se sente perdido, de pouco vale oferecer uma bússola. O desafio da Igreja está em saber ser o despertador e não bastar-se em oferecer a bússola. A mestria que tinham, aliás, Paulo e os primeiros anunciadores.