Confiança divina

Olho de Lince O facto já não é novo. Mas, acabado de contar, sobrepõe-se a todas as notas positivas encontradas nestes dias; soa como um ciclópico desafio à atitude de radical confiança no outro, que só os corações simples são capazes de viver sem reservas.

O rapaz estava à saída da Eucaristia, sem lugar para dormir, sem nada para comer, acabado de sair do cárcere. Movida pela genuína caridade cristã, aquela senhora tudo fez para que, acolhido na sua casa, no quarto vago do filho, se sentisse bem.

Sabendo da história do jovem, persistiu na prática de o tratar como pessoa digna de toda a confiança, como verdadeiro familiar, sem restrições de tempo, quanto a essa permanência, sem reservas de uso da guarida que lhe dera.

A verdade é que o jovem tomou rumo na vida – aparentemente e por um tempo. Só deixou a casa quando encontrou outra situação que aparentava estabilidade. Mesmo assim, continuando a ter acesso ao lar que o acolhera.

O resto da história não é tão feliz. Mas aquele coração de mãe, de confiança divina, não poderá ficar nas sombras do esquecimento. A sua memória há-de perdurar como acicate à nossa sede de “segurança”, cuja estrutura é a desconfiança do outro.

Q.S.