Modernidade paradoxal

A inteligência de alguns parece querer afirmar-se pela consideração de todos os que não pensam como eles como menos dotados, retrógrados – “conservadores”, como eles dizem. E não é despropositado pensar que, aliada a este raciocínio, está a vontade de querer identificar convicções religiosas com esses menos dotados, para atirarem com tais convicções para as masmorras da fossilização.

Na verdade, a modernidade trouxe-nos enormes aquisições favoráveis à afirmação da dignidade da pessoa humana, conquistas valiosíssimas para um progresso da Humanidade, descobertas científicas e tecnológicas que poderão tornar o Mundo apetecível e lugar de harmonia e paz para todos…

O certo é que tal progresso, transformado em “progressismo”, tem o Mundo como o conhecemos: cheio de armadilhas e ciladas, capazes de aniquilar a própria Humanidade; cheio de contradições e paradoxos, criadores de desigualdades humilhantes, geradores de multidões de excluídos e famintos… Mesmo neste Portugal “moderno”, cresce cada dia este panorama apocalíptico!

E isto simplesmente porque não se coloca a pessoa humana e a sua dignidade como objectivo primário e aglutinador de todas as políticas. Elegem-se prioridades tecnológicas, economicistas, que se dizem em função da pessoa, mas destroem-se os alicerces fundamentais que preservam a pessoa e a sua dignidade: a defesa e promoção da vida, em todas as circunstâncias e em todos os seus estádios, a defesa e consolidação das estruturas socais básicas (família, grupos e instituições sociais, confissões religiosas…), em favor de uma colectivização crescente da vida, tendente a fazer coincidir o público com o estatal.

Elegem-se como sinais de modernidade decisões que sufocam a vida indefesa, que desenvolvem a instabilidade familiar, afectiva e económica, abrindo às gerações vindouras um ambiente de ilusórias facilidades, falsa versão da liberdade, que encaminharão o nosso, como qualquer país, para um beco sem saída, uma extinção sem retorno.

Já não basta falar. Temos de gritar! Temos de gritar que a defesa dos valores permanentes da Humanidade é tarefa de todos; que o governo não é dono da iniciativa pública, nem pode impor uma estatização da vida dos cidadãos; que o estado é a salvaguarda e não o arquitecto da responsabilidade e solidariedade – a verdadeira cidadania! Temos de gritar, porque o poder se arroga o direito de nos substituir, de nos excluir, mesmo de nos eliminar, para nos apanhar nas malhas de uma ideologia tecnocrática inebriante e enturpecedora.