De A a Z, cada letra é o pretexto para falar de um assunto do Congresso — uma tentativa de resumo
Adoração
Durante o Congresso, o Santíssimo Sacramento esteve exposto na igreja do Seminário. Muitos cristãos, em grupo ou individualmente, congressistas ou não, diante d’Ele se ajoelharam, certamente a pedir pelo sucesso do Congresso.
Beleza
Tónica da primeira conferência, pelo Bispo de Viseu, que lembrou palavras de Sto Agostinho (“Tarde te amei, ó beleza tão antiga e sempre nova”), de Dostoievsky (“A beleza salvará o mundo?”) e, de passagem, se referiu ao “Belo Pastor” (tradução literal da expressão do Evangelho de S. João, mais conhecida como “Bom Pastor”). D. António Marto convidou à cultura da beleza contra a cultura da violência, da baixeza e da vulgaridade.
Congressistas
Eram 250, leigos, padres e religiosos, representando paróquias, grupos e movimentos. Outros gostariam de ter participado, mas a lotação do salão do Seminário impôs esse número.
Discípulos de Emaús
Foi o tema da segunda conferência, uma catequese bíblica, pelo Pe António Couto, da Sociedade Missionária Boa-Nova. O caminho de Emaús é aquele em que o ressuscitado se “intromete”, porque deseja ficar com os caminhantes. Faz “como se” fosse partir, porque deseja ficar. Na digressão pelas Escrituras, o coração dos discípulos fica a arder; na partilha do Pão, os olhos finalmente reconhecem o Ressuscitado. “Discípulos de Emaús” (Lc 24) não é um episódio do passado. É a transformação própria do discipulado, dos cristãos, na Eucaristia.
Estrutura
O Congresso esteve estruturado em quatro “grandes” conferências, duas em cada manhã, e seis sessões parciais, três em cada tarde. As conferências eram para todos. A participação nas sessões parciais exigiu uma escolha prévia. Os dias do congresso (10 e 11 de Junho) começaram e terminaram com oração.
Família
“Para nós, a participação na Eucaristia é uma actividade familiar”. “Nunca foi impedimento levar os filhos, mesmo bebés, mesmo que façam barulho, para que a vivam connosco desde pequeninos”. “Não podemos ir à Eucaristia buscar Cristo e depois deixá-lo adormecido durante a semana. (…) Tentamos, pais e filhos, dar testemunho do que comungamos e somos” – partilha do casal Jorge e Ana, na sessão parcial sobre “Eucaristia e Família”.
Graça
A Eucaristia é a Graça da Deus. Mas realça-se aqui outra o “de graça”. A participação no Congresso foi gratuita. Como o Congresso teve muitas despesas, a organização convidou os congressistas a oferecerem voluntariamente um contributo. Quanto é que ofereceram? Seria bom que a organização divulgasse os números.
Homilia
Deveria ser preparada por um grupo de leigos com o seu pároco – sugeriu Dias da Silva, respondendo a um sacerdote. “Não tem a ver com a ignorância dos padres, mas com a sensibilidade dos leigos”.
Infância
Alguns pontos fundamentais da sessão parcial “Eucaristia e celebração com Crianças”, orientada pelo Pe Joaquim Martins, com a cola-boração de catequistas e pais de Es-gueira: A criança vai desafiando, porque a criança de ontem não é a de hoje. A criança ou é cativada e gosta, ou rejeita. Se gosta, arrasta os pais. Os pais têm uma fé adormecida ou envergonhada. Crianças em catequese exigem “pais em catequese”.
Jovens
“Para os jovens, é importante compreender que celebrar a Eucaristia é celebrar a fé e a vida. E é fundamental que as celebrações proporcionem espaço para afirmação pessoal, participação activa e identificação com o grupo”. No trabalho de grupos, parte dos congressistas da sessão parcial orientada pelo Pe Rui Barnabé reuniu-se numas escadas do Seminário. “Assim puderam sentir as dificuldade porque passam muitas vezes os jovens nas paróquias”, disse Rui Barnabé ao CV.
Luzinha
Isabel Varanda referiu-se à luzinha que brilha ao lado do sacrário, para falar da escuridão do nosso tempo: “angústia existencial” e “melancolia prática”, raquitismo de horizontes antropológicos”. A sua conferência ficou marcada por convidar a assembleia a cantar. “Eu estou à porta e chamo” foi o primeiro cântico, a partir de uma frase de Jesus, no livro do Apocalipse. A Eucaristia é o convite divino que dissolve a terrível solidão humana.
Mundo
Os cristãos são a alma do mundo – disse Lucília Amador, na sessão parcial sobre “Eucaristia para além da Celebração Eucarística”. Quando a Eucaristia é vivida apenas no espaço interior do templo, sem amor ao próximo, sem “serviço doado aos outros”, pode ser uma celebração bonita, mas não é Eucaristia. O prolongamento da Eucaristia faz-se também pela adoração, pela oração, pela reconciliação, esse “esvaziamento para nos enchermos de alegria e esperança”.
Narrativas
“No tempo de secularização e de individualismo extremo, faltam narrativas portadoras de coerência existencial” – disse Isabel Varanda, na última conferência. Faltam pontos de referência que ajudem o seu humano a entender-se, para não cair no absurdo e no relativismo. As narrativas com referência a Deus – sabíamos de onde vínhamos e para onde íamos – tinham esse papel. No mundo actual, com o “humano deixado a si mesmo”, converteram-se em dogmas frases como “a vida é minha”, “faço o que quero”. O resultado: a “grande ruptura”, a perda do sentido do próximo, uma existência dependente e infeliz, que, por exemplo, “precisa de medicamentos para se tornar suportável”.
Organização
Na distribuição de documentação, no cumprimento dos horários, na distribuição dos congressistas pelas sessões parciais… a organização esteve bem. Discreta e eficaz.
Presidente
O Presidente do Congresso não esteve em nenhuma sessão. Ou melhor, esteve em todas, mesmo nas parciais, que decorreram em simultâneo. É que o “presidente do congresso é o Jesus Eucarístico”, como notou D. António Marcelino na oração de abertura, junto a Ele, na igreja do Seminário, acrescentando que o discurso de abertura era a passagem Jo 6,23-35 (“Pão da Vida”). Pelas conferências e comunicações, este congresso é como qualquer outro. Pela presidência eucarística e pela relação permanente dos temas com a Eucaristia é que o congresso se revelou diferente.
Quando?
Na sessão orientada pelo Pe Joaquim Martins, partilhou-se a experiência das missas com crianças em Esgueira. Os mais novinhos estão com a assembleia a primeira parte da missa. Quando chega ao fim a homilia, saem e continuam o seu encontro numa sala à parte. Pergunta frequente das crianças é: “Quando é que nós podemos ficar até ao fim?”
Recasados
Muitos querem e não podem. Querem comungar, mas, devido à situação de recasados, não o podem fazer – foi a questão central de “Eucaristia e Casais Recasados”, sessão orientada pelo Pe Manuel Joaquim Rocha. Mas há uma certeza: “A partir do Deus amor, rico em misericórdia, vamos continuar a procurar formas pastorais de acolhimento e acompanhamento mais expressivas, a facilitar a incorporação mais positiva na comunidade paroquial, a ajudar a libertar de angústias, a experimentar a paz de Deus, que a ninguém é negada”.
Social
A terceira grande comunicação versou a relação da Eucaristia com o compromisso social. As palavras de José Dias da Silva, leigo de Coimbra foram contundentes: “Somos bons a remediar, mas maus a eliminar as causas. O que faço eu no meu estilo de vida para mudar? Vejo muitos discursos moralistas, mas não vejo mudança de vida.”
Tradicional
“Estamos ainda muito marcados pelo tradicional, pelos preceitos dominicais. É necessário um esforço de conversão para o fundamental. (…) O problema não é se ainda não chegámos [à vivência profunda e comunitária da Eucaristia], mas se nos resignámos” – palavras de D. António Marcelino, no momento de oração na tarde do dia 11.
Universo
A Eucaristia tem uma dimensão cósmica. Nos frutos da terra e do trabalho do Homem é toda a Criação que é devolvida a Deus – ideia presente em várias comunicações.
Velocidades
José Dias da Silva sugeriu uma paróquia a duas velocidades: um núcleo duro, exigente consigo próprio, à volta do pastor, que pode alargar-se, e um núcleo mais alargado e popular, para o cristianismo de tradição.
X de Incógnita
Em Abril, o Pe Victor Marques, da organização, dizia ao Correio do Vouga que o êxito do Congresso dependeria do que fossem os dois dias de comunicações. Após os dois dias, muitas vozes concordaram que, de facto, o Congresso foi muito bom. Mas o verdadeiro sucesso do Congresso são resultados dificilmente contabilizáveis e só a longo prazo. O que fica na memória e no coração das pessoas? O que muda na sua vida? Que reflexos chegam às comunidades? Aumenta o compromisso social dos cristãos? Muitas incógnitas.
Zelo
“O Pão que recebemos na Eucaristia abrange uma área tão vasta quantas as necessidades da sociedade actual: géneros alimentares, vestuário e outros bens materiais, mas também uma palavra amiga, um recado que se faz, uma visita, um conselho…”, disse Diác. José Alves, na sessão “Eucaristia e partilha fraterna de bens”.
O zelo eucarístico pelos pobres tem hoje novos âmbitos: “as situações de abandono de crianças e idosos, o desemprego, e, nesta área, o desemprego de tantos jovens com cursos superiores que estão em desânimo, a maternidade juvenil, o abandono escolar, etc”.
* Com a colaboração de vários congressistas nas sessões parciais
