Depois de Viena (2003) e Paris (2004) e antes de Bruxelas (2006) e Budapeste (2007), a capital de Portugal é invadida por iniciativas, de exposições a concertos, de conferências a momentos de oração, passando pelo congresso propriamente dito, em que o objectivo unificador é fazer “Missão na Cidade”. Por outras palavras: reflectir e pôr em prática a Nova Evangelização.
O ICNE (sigla em inglês) nasceu a partir da constatação de que as grandes cidades europeias estão descristianizadas e é, no fundo, uma resposta ao apelo de João Paulo II, logo na década de 1980, quando apelou a uma “nova evangelização”, com “novo vigor”, “novos métodos” e “nova expressão”.
D. José Policarpo, Cardeal-Patriarca da Lisboa, para preparar e viver o ICNE escreveu uma extensa carta pastoral, em que afirma que “a missão da Igreja na cidade exige que se conheçam as grandes coordenadas da sua problemática humana. As cidades, enquanto grandes aglomerados de populações, deveriam ser espaço de encontro e de convergência, de solidariedade e de partilha da vida, numa palavra, espaços abertos à construção de comunidades. Esta dimensão humana é a que mais interpela a Igreja, pois é às pessoas que ela é enviada para as ajudar a serem felizes, construindo, em comunidade, a consciência da sua dignidade e o espaço da sua liberdade”.
“Baptizados não praticantes” são o alvo
O Cardeal Patriarca reconhece que a descristianização chegou à cidade, hoje habitada por menos “católicos praticantes”, muitos “baptizados não praticantes”, alguns ateus e agnósticos e outros grupos religiosos. A Igreja deve dirigir-se em especial aos “baptizados não praticantes”. “Este grupo deve constituir o alvo privilegiado da ‘nova evangelização’, porque guarda uma atitude crente fundamental, muitos contactam ainda a Igreja em momentos particularmente significativos da vida, como o são o nascimento, o casamento, a morte e outros momentos de aflição. E também porque o baptismo é sempre uma semente de vida sobrenatural da fé, apta a germinar desde que o mínimo de circunstâncias lhe sejam propícias. A acção pastoral junto destes ‘cristãos esquecidos’, exige da Igreja uma reflexão criativa sobre atitudes e métodos”, afirma o Cardeal.
E porque “a missão da Igreja na cidade exige que se conheçam as grandes coordenadas da problemática humana”, D. José Policarpo descreve “a alma de Lisboa”, a sua população e alguns factores culturais que deterioram a identidade cristã e a vida da graça. São eles: o naturalismo como atitude de compreensão da vida (“Tudo o que é natural é bom” é o modo de pensar comum, segundo D. José Policarpo. Ora, “o que é natural só será plenamente bom se for vivido com a força da graça sobrenatural”); e o subjectivismo na busca da verdade (“cada um tem direito a construir a sua própria verdade”).
Para que a evangelização seja eficaz, D. José Policarpo afirma a necessidade de aprender novas linguagens, como no Pentecostes: “Devemos estar atentos e aprender a escutar as linguagens, aparentemente profanas, de todos os que connosco convivem na cidade, pois também elas podem exprimir a busca da verdade e da beleza”. A última parte do documento é uma síntese do anúncio cristão para o tempo actual – afinal, trata-se do grande objectivo do congresso (ver excerto em destaque).
Mudar a vida e converter os corações
Este Congresso acentuará a dimensão querigmática [“querigma” é o primeiro anúncio, que apela à conversão, como: “Cristo ressuscitou” ou “Deus ama-te”] da nossa pastoral evangelizadora, ou seja, ensinar-nos-á a anunciar, de forma simples, directa e interpelante, as verdades decisivas da fé cristã, as únicas que podem mudar as vidas e converter os corações.
O anúncio querigmático da fé tem determinadas características que constituem a sua força de convicção. Tem a simplicidade da vida, a clareza da convicção, que lhe vem do facto de ser um testemunho de vida, a humildade da proposta, fruto do amor fraterno, baseado na coerência da verdade em que se acredita. Brota da alegria de se pertencer a um Povo, o Povo de Deus, verdadeiro sujeito da fé da Igreja, que situa no mistério da comunhão a dimensão pessoal e individual da nossa crença. É sempre uma expressão de amor, repassado de respeito pelos outros e desprendido nos resultados que espera ou procura, pois uns semeiam e outros colhem, e só o Senhor é o Mestre da seara.
Este testemunho simples, sincero e ousado, mas desprendido e gratuito, é hoje muito importante no contexto da missão da Igreja na cidade. Ele comunica o essencial da fé da Igreja, apresentada como experiência de vida e não apenas como exposição doutrinal.
D. José Policarpo, Cardeal-Patriarca de Lisboa, excerto da Carta Pastoral “A Igreja na Cidade”
Para conhecer em profundidade o documento, consulte www. ecclesia.pt; as iniciativas do ICNE estão em www.icne-lisboa.org
