Consciência contemporânea e exercício do magistério (I)

Revisitando o Vaticano II Em resposta ao apelo de João Paulo II, na encíclia Ut Unum Sint, o teólogo Bernard Sesboué, no seu livro Magistério em Questão – Autoridade, verdade e liberdade na Igreja -, faz algumas reflexões que nos poderão situar no caminho da compreensão do exercício e da recepção do Magistério nos nossos dias.

1 – Evolução irreversível da consciência moderna. A maioria dos nossos contemporâneos assume uma atitude de consciência adulta, sensível: à exigência de respeito pela liberdade humana; à negociação no exercício da autoridade; a tudo o que seja percebido como exclusão; ao desejo de ser associado à tarefa da procura da verdade; à autoridade concebida como imposição do alto.

2 – Uma nova figura da fé. O crescente número de catecúmenos adultos e o regresso de outros à prática religiosa é portador de uma nova figura de fé: a pessoa humana já não nasce cristã, mas torna-se cristã por decisão livre, retomando a ideia de Tertuliano nascitur homo, fit christianus. Nestas circunstâncias, a perspectiva do convite substitui a da obrigação, aliás no seguimento do Vaticano II, que, ao falar sobre a Revelação, a descreve como uma interpelação de Deus ao ser humano, a quem fala como a um amigo (Cf. DV 2). Com um retorno claro ao Evangelho, esta nova figura de fé busca a coerência do ritual com o existencial, a solidariedade entre o discurso e a acção.

3 – Uma nova figura da vida eclesial. Emergem novas formas de vida comunitária; mas, sobretudo, nova maneira de conceber a vida eclesial como corresponsável e participada. Multiplica-se a diversidade de iniciativas e movimentos, com novos contornos comunitários de vida e de empenhamento apostólico – facto eclesial novo, pelo qual o Espírito fala às Igrejas. A experiência sinodal em muitas Dioceses é também uma manifestação clara desta nova figura. Em face disto, a circulação comunitária de energias entre as Igrejas e os diversos círculos nas Igrejas tem de encontrar outros equilíbrios.

A liberdade religiosa, sublinhada pelo Vaticano II, como também as relações entre a Igreja e as outras religiões e a sociedade, não podem deixar de exercer um impacto na vida da Igreja.

Estes são sinais de uma influência da sensibilidade da consciência moderna na vida da Igreja, os quais revelam: que o exercício do magistério se confronta com outra realidade, pelo que, fiel à mesma missão, terá de se fazer em atitude e expressões diferentes; que as condições de recepção do mesmo magistério se alteraram, em consideração mais crítica, mas seguramente mais consistente.

(continua no próximo número)

Querubim Silva