É perigoso construir sobre a areia

À Luz da Palavra – IX Tempo Comum – Ano A A liturgia da palavra deste domingo pretende instruir-nos sobre o facto de que a vida humana só tem garantia de consistência e de durabilidade no tempo e na eternidade, se se apoiar na Palavra de Deus, inscrita no coração humano e revelada em Jesus Cristo.

No evangelho, Mateus convida as comunidades cristãs de todos os tempos e lugares a enraizarem a sua vida na Palavra de Jesus e a traduzir essa adesão em acções concretas, pois, para ser cristão, não basta dizer palavras bonitas. O nosso tempo está profundamente marcado pela inconsistência e precaridade das relações e compromissos interpessoais. À luz do evangelho, podemos perceber que estas características são uma consequência do modo como construímos a nossa vida (a nossa “casa”), muitas vezes, sobre a areia. Cai a chuva, vêm as torrentes e sopram os ventos contra a nossa casa e ela desmorona-se e é grande a sua ruína. Mateus exorta os cristãos a não se contentarem em invocar o nome de Deus em vão, com uma simples interjeição: “Oh Senhor!”, “Valha-me Deus!”, mas a conhecerem bem Jesus e a porem em prática a vontade do Pai, como Ele fez e nos ensinou a fazer. Então, a nossa “casa” não cairá, porque está fundada sobre a Palavra.

A primeira leitura convida os crentes a deixarem que a Palavra de Deus envolva e penetre toda a sua vida, marque os seus pensamentos, sentimentos e acções. Garante-nos que construir a vida à volta da Palavra de Deus é assegurar a nossa própria felicidade. Os preceitos de Moisés, transmitidos nesta leitura, exortam a que as palavras de Deus fiquem gravadas no coração e na alma, sejam atadas à mão e colocadas entre os olhos, como um sinal, a fim de que cada judeu obedeça aos mandamentos do Senhor. De facto, os mais crentes do judaísmo mantinham o costume de usar as filactérias ou pequena caixa de couro amarrada com tiras, no braço esquerdo e na fronte. Contudo, diante da Palavra de Deus encarnada, Jesus Cristo, ficaram cegos e surdos. Pode ser também a situação existencial de cada um e cada uma de nós, se mantivermos apenas uma prática cristã exterior, relativamente ao que pensamos ser a Lei de Deus, e não a gravarmos no nosso coração, de modo a que a Pessoa de Jesus Cristo enforme toda a nossa vida e acção.

A segunda leitura garante-nos que a salvação resulta do dom gratuito de Deus, tornado presente em Cristo, a Palavra viva de Deus, que veio ao nosso encontro para nos arrancar do caminho da escravidão, do pecado e da morte. Na verdade, diz Paulo, para além da Lei de Moisés, que foi dada apenas ao povo judeu, manifestou-se agora a justiça de Deus, que “vem pela fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os crentes”. Não são as obras da Lei que nos salvam, mas é a fé em Jesus Cristo que nos justifica, isto é, que nos liberta do pecado e nos torna santos. Quando a Palavra de Deus está no centro da nossa vida e dá forma aos nossos pensamentos, sentimentos e acções, podemos caminhar, com segurança, ao encontro da nossa realização plena, da vida definitiva.

IX Domingo Comum: Dt 11,18.26-28.32; Sl 31 (30); Rm 3,21-25a.28; Mt 7,21-27

Deolinda Serralheiro