Consciência contemporânea e exercício do magistério (II)

Revisitando o Vaticano II Continuamos a exposição do pensamento de B. Sesboué, como resposta ao apelo de João Paulo II para se reflectir o exercício do ministério petrino da comunhão, em moldes que o tornem eficiente e promotor da unidade nos tempos que vivemos.

1 – A Igreja deve perceber que vive em contexto de uma sociedade pluralista. Tal significa um enfraquecimento da sua autoridade normativa, no seio dos seus próprios fiéis. Agora uma instância de referência entre outras, a sua fala só pode revestir um tom de convite e de proposta.

2 – Podemos mesmo dizer que se desintegrou uma cultura católica, diluindo-se, com isso, também a sua função dominante de integração social. De algum modo, há uma transferência de “bens” antropológicos e culturais do cristianismo para a sociedade global, que os pode acolher, mas já não a título de valores cristãos.

3 – De tudo isto resulta um conflito de “ethos” (moral): hoje e no futuro, o magistério da Igreja deve dirigir-se a pessoas adultas, capazes de reflexão e julgamento, em clima de confiança e fé mútuas. O que quer dizer que é necessário superar este hiato desastroso de uma autoridade que se afirmava de maneira forte e coerciva, para, sem se tornar “manga larga”, se manifestar como aceitação do direito ao diálogo, à partilha de experiência, ao debate.

4 – Tudo isto abre caminho a uma reavaliação de procedimentos, mais pacientes, mais lentos, mas seguramente mais eficazes e duradouros. A regulação da fé tenderá a alterar-se, quanto ao seu conteúdo e ao seu modo de exercício. É verdade que cabe ao Magistério interpretar autoritativamente a Mensagem apostólica. Mas a preocupação há-de ser de se fixar no fundamental e de, perante os problemas novos, deixar livre o terreno à reflexão e ao diálogo pelo tempo suficiente. Carta magna deste exercício continua a poder ser o adágio indevidamente atribuído a Santo Agostinho: In necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas (Unidade no que é necessário, liberdade no que é duvidoso, caridade em tudo).

5 – Impõe-se uma nova forma de gerir a verdade, que retome a preocupação do primeiro milénio – a preocupação de afirmar a obediência necessária à mensagem original, a verdade do Evangelho, fundamento da própria autoridade da Igreja. Ou seja: algo é verdade não porque a Igreja, legítima autoridade, o ensina, mas porque a mensagem evangélica o impõe. As credenciais do discurso do Magistério devem ser, cada vez mais, as da Escritura e da Tradição. E, por outro lado, sendo o Evangelho inesgotável, reclama-se a dinâmica de Agostinho: procurar para encontrar; encontrar para procurar sempre mais.

6 – Tendo a teologia uma missão eclesial específica, seja de investigar os dados da Revelação, seja de mediar o ensino do Magistério para que se torne acolhido e vivido pelo povo cristão, só um clima de cooperação confiante e fecunda poderá gerir as relações da Teologia com o Magistério. Se a “teologia periférica” deu um contributo tão grande ao Vaticano II, como não voltar a superar o clima de suspeita e de medo, que, entretanto, se instalou?

(continua ainda no próximo número)

Querubim Silva