No rescaldo de duas palestras 1. A Lúcia gostou de ouvir o Professor Rogério Roque Carvalho do ISCTE contar que um grupo de pais se reuniu, para dar continuidade à escolarização dos seus filhos na Guiné-Bissau. Como não havia escola oficial, decidiram que os filhos mais velhos ensinariam as crianças, sentadas no banquinho que cada uma levava de casa, debaixo da sombra da árvore mais frondosa do bairro. O caderno diário começou por ser a memória. Os pais, pessoas pobres e analfabetas, quotizaram-se para pagarem aos professores. A iniciativa expandiu-se, várias aldeias copiaram a ideia; algumas têm três turmas; umas têm aulas até ao nono ano; outras até ao 12º. O sucesso escolar é mais elevado do que nas escolas públicas. Ali, todos vão por gosto. A primeira aldeia que teve a iniciativa de fazer uma escola com os seus próprios recursos não parou: a escola já tem paredes e tecto; o centro de saúde, a rádio, o polidesportivo, a recolha do lixo e a cooperativa de mulheres costureiras foram outras formas de mobilização local com resultados surpreendentes. Aquela comunidade empreendedora tinha um problema (vários), descobriu e desenvolveu capacidades nos seus habitantes, convertendo-os em respostas eficazes.
– Que pena que as minhas amigas tenham estado a mandar sms e de volta do jogo do galo! Elas que passam o tempo a queixar-se de que os pais as obrigam a vir à escola! Se tivessem nascido na Guiné?!
2. Aos 15 anos, foi deixado sozinho nas ruas de S. Paulo. Escolhido pelo xamã da sua tribo, marcado em criança com um sinal na testa, todos sabiam que estava preparado para divulgar as tradições do seu povo. Dormiu debaixo da ponte cerca de três anos e meio. O primeiro emprego foi numa padaria. Aprendeu português, frequentou a Universidade, onde hoje é professor de Artes, especialista em Cultura Popular Brasileira.
“Trilha de serpente”, nome indígena do professor José Francisco de Lima, que falou da sua vida a vários alunos em duas escolas secundárias portuguesas, é defensor dos direitos e costumes do seu povo. Partindo de uma dúzia de fotografias de índios com nome próprio, José Francisco de Lima denunciou situações de escravatura e de desrespeito pelo outro, intolerância cultural e destruição da vida humana e natural. Desconhece o Padre António Vieira [comemoram-se hoje os 400 anos do seu nascimento – Lisboa, 6 de Fevereiro de 1608, morreu na Bahia, 17 de Junho de 1697 –. Aqui fica, neste parêntesis, um convite à leitura dos Sermões do Padre António Vieira, autor da frase com que intitulei esta crónica], mas partilha das mesmas preocupações: os brancos chacinam grandes grupos populacionais que vivem em reservas índias; o uso da terra e a desflorestação obriga as tribos a imigrarem; alguns missionários – leigos e consagrados – e índios desaparecem por saberem demais.
Para o Ricardo, aquelas fotografias de índios, das habitações e do alimento preferido – quem não se lembra do Indiana Jones a comer miolos de macaco como sobremesa? – fizeram-no descobrir um mundo que pensava só existir nos livros (Lera A cidade dos deuses selvagens de Isabel Allende e percebeu que a escritora se inspirara na vida real).
– Que pena que os meus colegas tenham estado a mandar sms durante a conversa! Se tivessem nascido yanomami, estavam agora debaixo da ponte, a pensar como iriam sobreviver no mundo dos brancos. Eles que passam o tempo a queixar-se de que os pais os obrigam a vir à escola!
P.S. – A ementa para 2008 (cf. meu artigo 3 de Janeiro) veio recheada como previsto, e muito se tem protestado. A sobremesa inesperada apareceu na Sondagem Gallup para o Fórum Económico Mundial. Segundo a notícia de 25 de Janeiro, os professores são os profissionais em quem os portugueses mais confiam e também aqueles a quem confiariam mais poder no país. “E esta, hem?!” como diria o saudoso Fernando Pessa.
Para saber mais sobre a tribo yanomami (cerca de 26 000 pessoas que ocupam um território que se estende entre o Brasil e a Venezuela), consulte-se a internet.
