Na cidade de Aveiro construíram-se navios bacalhoeiros A perenidade da construção naval em madeira na região de Aveiro, nos séculos XIX e XX” foi o tema que António Vítor Nunes Carvalho apresentou na sessão, da semana passada, do curso “Herança cultural na sala de aula”.
Na região da ria de Aveiro, a construção naval, em madeira, é uma actividade secular que teve o seu apogeu na primeira metade do século XX, com a construção de dezenas de navios para a pesca do bacalhau, com embarcações a atingirem mais de cinquenta metros de comprimento, quinhentas toneladas de arqueação e quatro mastros.
Nos séculos XVII e XVIII, nesta região, a construção de embarcações de mar dependeu da maior ou menor navegabilidade da Barra. No entanto, após a reabertura artificial e definitiva da Barra, em 1808, este tipo de construção naval teve um grande incremento, tendo aqui sido construídos os típicos “varinos” do Tejo, barcos para o transporte de sal no rio Sado e barcos para a pesca da xávega, entre outros.
Mas foi com o reactivar da pesca do bacalhau, na segunda metade do século XIX, que esta actividade assumiu um papel relevante na economia regional, especialmente a partir da década de 80 do mesmo século, com a criação dos estaleiros Mónica, na Gafanha da Nazaré. No entanto, ainda no início do século XX, construíram-se navios para a pesca do bacalhau na cidade de Aveiro, onde hoje é o Rossio e junto à Ponte de S. João. Na Murtosa, nomeadamente no Cais do Bico, foram construídos pelo menos três navios bacalhoeiros. Também alguns armadores montaram, nas suas secas de bacalhau, estaleiros provisórios onde construíam os seus próprios navios.
Estaleiros “Mónica”
foram um marco
A tese de mestrado de António Vítor Nunes de Carvalho foi centrada na história dos Estaleiros Mónica, desde a sua criação, na década de 80 do século XIX, no lugar da Malhada (cidade de Ílhavo), até ao seu final, cerca de um século mais tarde.
Durante décadas, a família Mónica dominou a construção naval em madeira, na região de Aveiro, tendo também desempenhado uma acção relevante na construção naval na Figueira da Foz. Na Gafanha da Nazaré, local para onde transferiram os estaleiros, ainda no século XIX, os Mónica criaram uma indústria que chegou a empregar mais de duzentos e cinquenta operários, e tiveram dois estaleiros em laboração (um de cada um dos irmãos), tendo produzido dezenas de navios para a pesca do bacalhau, alguns dos quais foram mesmo inovadores na frota portuguesa. Após a segunda guerra, a construção naval em madeira perde importância em relação aos navios em aço, apesar desses grande veleiros em madeira já estarem equipados com motor, frigorífico, rádio, entre outros meios técnicos.
Desse período áureo da construção naval em madeira, ainda existem alguns navios, como o “Santa Maria Manuela”, o “Creoula” e o “Gazela” (que se encontra na cidade norte-americana de Filadélfia). Do último bacalhoeiro em madeira construído nos estaleiros Mónica (o “Novos Mares”), ainda restam alguns pedaços em Ílhavo (frente ao Museu Marítimo e na Malhada) e na Costa Nova.
Para além dos navios bacalhoeiros, nos estaleiros “Mónica” foram construídos seis navios “draga-minas” para a marinha de guerra inglesa, em pleno período da Segunda Guerra Mundial. Aqui foram construídas duas “caravelas” – “Nau Portugal” e a “S. Vicente”, que foram um fracasso, e ainda um navio cargueiro para a marinha mercante.
Nos últimos anos da sua existência, os Estaleiros Mónica dedicaram-se, sobretudo, a reparar os navios de madeira e a construir traineiras e outras embarcações de menores dimensões, também de madeira. O ocaso destes estaleiros foi motivada pela existência dos Estaleiros de S. Jacinto, que tinham autorização para construir navios de aço, autorização que os “Mónica” nunca obtiveram. No final do século XX, nos Estaleiros Ria Marine, a construção naval de madeira teve um lampejo dos seus tempos áureos, quando foi reconstruída a fragata “D. Fernando II e Glória”, obra em que participaram alguns antigos mestres carpinteiros navais dos estaleiros “Mónica”.
