Construir a Memória

Educar… hoje “Porque escrevo? Talvez para não enlouquecer. Para arrancá-los do esquecimento. E ajudar assim os mortos a vencerem a morte.”

Elie Wiesel*

Bigs, Quintas, Ilhas e outros que tais são programas que hoje contribuem para a construção da memória colectiva do povo português. A vida é aí apresentada como se de uma novela se tratasse (Neste rol, não esqueçamos as telenovelas. Mas sabemos que essas são ficção.), na maior parte das vezes protagonizada por valores discutíveis, como o da fama e notoriedade a todo o custo. E o público adopta o tique de fulano, o comentário de sicrano e a atitude de beltrano. Nada contra quem vê e faz memória colectiva por aí, se é que faz! Mas lamento que a televisão não ajude a construir Memória nos canais generalistas.

Há uns 20 anos atrás, víamos filmes e documentários históricos. Via-se e formava-se uma opinião. Percebia-se que não era ficção, sabia-se que o argumento se baseava na vida real de milhares de judeus e de outros perseguidos, torturados e gaseados em campos da Alemanha nazi.

Estamos em 2005, ano em que se comemora o 60º aniversário da libertação do Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polónia, a 27 de Janeiro. Nos telejornais portugueses, pouco se fala do assunto. Pelo contrário, os telejornais franceses, por exemplo, abundam em reportagens, talvez por milhares de franceses terem perecido durante a Segunda Guerra Mundial. No alinhamento de filmes e programas nas quatro televisões portuguesas, a que se tem acesso sem encargos de cabos, pouco relevo se dá a este acontecimento. É pois de estranhar que alunos de 18 anos hesitem em identificar uma personalidade como Hitler? Sim, há quem não saiba bem de que “lado” estava, se do dos alemães, se do dos judeus. Diga-se, em abono da verdade, que qualquer pessoa que faça hoje o nono ano deve ter esta “matéria” sabida. Parece-me que o problema não está propriamente na matéria estudada nas aulas (com todas as contingências a elas aliadas e que não se discutem aqui, hoje), mas sim no perpetuar de uma memória colectiva que outros meios também devem garantir.

Hoje, a Memória paga-se na televisão, no acesso a canais privados (SICs e RTP Memória). Nos generalistas, constrói-se outra memória com indivíduos de que poucos ouviram falar, mas de que todos falam, porque o 4º poder (mass media) se sobrepôs aos outros.

A libertação do campo de Auschwitz-Birkenau não será uma data a reter na Memória de toda a Humanidade? Há ainda hoje sobreviventes desse e de outros campos da Segunda Guerra Mundial, testemunhos vivos das atrocidades então cometidas. Há, hoje e sempre, obras, como o Diário de Anne Frank, uma das mais lidas de todos os tempos, que perpetuam a Memória. Memória que tem de ser conservada.

Por tudo isto, a Escola tem de contribuir cada vez mais para formar a Memória colectiva, para que a Memória permaneça, quer através da disciplina de História, quer pelas outras em que se capta a atenção para Obras, situações actuais e acontecimentos passados. E também pelas matérias, pelos autores que se lêem (para que se não diga que Garrett — 1799-1854 — “não foi muito importante no panorama literário português.” – Estranhou? Não estranhe! Onde estão as comemorações do 150 anos da morte do introdutor do Romantismo em Portugal?) e ainda pelos trabalhos de investigação, em Áreas de Projecto, em Projectos Europeus ou em Projectos Nacionais.

* O escritor Elie Wiesel foi Prémio Nobel da Paz em 1986. Sobrevivente de Auschwitz, testemunhou a barbárie no seu livro Palavras de Estrangeiro.