A conjuntura que vivemos não se compadece com egoísmos, com clientelas, com caminhos ocultos, nem sequer com intermitências ou desânimos. Reclama o empenho de todos, com transparência, com persistência e coragem. Pode perguntar-se se os cristãos, cidadãos como os demais, pelo facto de o serem, poderão acrescentar alguma coisa neste compromisso comum.
Profeticamente, Bento XVI escreveu, na sua encíclica “Caridade na Verdade”, algumas linhas que não deixam margem para dúvidas, nestas circunstâncias de crise e incerteza, com em qualquer tempo. O cristão, possuído pelo amor de Deus e consciente de que a Sua glória é o bem do Homem, deve estar na primeira linha de combate pelo bem comum.
Diz o Papa: “É a consciência do Amor indestrutível de Deus que nos sustenta no afadigado e exaltante compromisso a favor da justiça, do desenvolvimento dos povos por entre êxitos e fracassos, na busca incessante de ordenamentos rectos para as realidades humanas. O amor de Deus chama-nos a sair daquilo que é limitado e não definitivo, dá-nos coragem de agir, continuando a procurar o bem de todos, ainda que não se realize imediatamente, ainda que aquilo que conseguimos realizar – nós e as autoridades políticas e os operadores económicos – seja sempre menos do que quanto anelamos. Deus dá-nos a força de lutar e sofrer por amor do bem comum, porque Ele é o nosso Tudo, a nossa esperança maior”.
Portanto, o amor de Deus é um sustentáculo permanente, mesmo quando as coisas não vão de feição. A consciência de que este empenho é um dinamismo permanente, que se prolonga para além dos limites do espaço e do tempo, confere-nos a alegria de celebrar cada passo em frente, como plataforma para desenhar e construir novos projectos.
A convicção de que haverá sempre uma distância entre o que sonhamos e o que somos capazes de realizar, em vez de paralisar de pessimismo e de medo, estimula a crer que é sempre possível ir mais além. Teremos sempre caminho a fazer, até chegar a Ele que é o nosso Tudo!
E é claro que o coração do crente não tem portas nem janelas: está sempre aberto à cooperação com todos os que se empenhem nas mesmas causas. Toma a iniciativa e acolhe as iniciativas dos outros em prol do Homem. Dá ainda o seu contributo com este horizonte de pessoa integral que contempla uma série de vertentes complementares, cabendo a cada um dar o que lhe é específico: a ciência, a política, a economia, a fé…
Há ocasiões propícias para que os princípios evangélicos, feitos maneira de pensar e de agir, não se exprimam apenas por um silencioso testemunho eloquente, mas se tornem palavra explícita numa cultura e filosofia de vida cristãs. A luz não é para se colocar debaixo do alqueire! Nunca deveria ser! Mesmo quando isso custa a própria vida.
