Convento das Carmelitas deve voltar à Igreja

Para corrigir um erro histórico com 95 anos “Reparar um erro histórico cometido exclusivamente por motivos ideológicos, há 95 anos”, é como o padre João Gonçalves comenta o desejo de ver regressar à tutela da Igreja o antigo convento de S. João Evangelista, mais conhecido por convento das Carmelitas, edifício propriedade da Câmara Municipal de Aveiro e que, até há pouco tempo, esteve ocupado pela PSP.

Após a implantação da República, em 1910, a propriedade do convento passou para a Câmara Municipal de Aveiro, facto que só aconteceu por motivos ideológicos e anticlericais então vigentes. Por isso, o pároco da Glória afirma que “quando temos um bem que não nos foi legitimado, não há razão para continuarmos a manter a sua propriedade”, facto que ainda é mais grave “quando os seus legítimos proprietários existem e reivindicam os seus direitos”. O convento foi feito para o serviço da Igreja, pelo que deve regressar à tutela da Igreja.

Opinião idêntica tem o padre José Belinquete, autor do livro “As Carmelitas em Aveiro – Ontem e Hoje”, publicado em 1996, considerando que a entrega do imóvel à Igreja era uma forma da autarquia aveirense “saldar” uma “injustiça cometida contra o próprio edifício conventual”, quando, em 1905, o executivo municipal de então, liderado por Gustavo Ferreira Pinto Basto, conseguiu convencer o governo a entregar à Câmara a propriedade do edifício, para que esta pudesse avançar com o seu projecto, que implicava a demolição de parte do convento, e da respectiva igreja, para abrir a actual Praça Marquês de Pombal.

Para o monsenhor João Gaspar, o único aveirense membro da Academia Portuguesa da História, o executivo municipal tem competência para ceder à Igreja, por um período de cinquenta anos, o direito de utilização do convento, mantendo a autarquia a propriedade do imóvel, tal como aconteceu durante o período em que o edifício esteve ocupado pela Polícia de Segurança Pública.

O convento deve “voltar às origens religiosas” é o desejo do padre José Belinquete, que sublinha que não é legítimo a autarquia pô-lo ao serviço de outras funções civis, como tem acontecido desde a implantação da República”, como parece ser o desejo do actual executivo municipal de autorizar a instalação do Juízo Tributário, agregado ao Tribunal Administrativo e Fiscal de Viseu, no referido imóvel.

Para o autor do livro “As Carmelitas em Aveiro – Ontem e Hoje”, o convento de S. João Evangelista deveria acolher um museu de arte sacra, que poderia funcionar como pólo do Museu de Aveiro, no qual teria um destaque especial o espólio que pertenceu ao antigo convento e que está depositado no Museu de Aveiro. De acordo com este padre, é fácil saber qual o recheio do antigo convento das Carmelitas, já que existem dois inventários detalhados desse espólio, um realizado em 1834 (da altura da extinção das ordens religiosas em Portugal), e outro de 1911 (data em que o governo cedeu a propriedade do convento à Câmara Municipal de Aveiro e a igreja conventual ficou alocada ao Museu de Aveiro.

A instalação de um museu de arte sacra no antigo convento é ainda mais premente após as obras de restauro da igreja, que está classificada como monumento nacional e tutelada pelo IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico), instituto que se prepara para abrir uma loja na antiga “casa do capelão”, situada nas traseiras da igreja. O museu seria também uma forma de rentabilizar e valorizar o investimento efectuado no restauro da igreja.

O padre João Gonçalves realça que a paróquia tem projectos que podem “rentabilizar o edifício do convento, dando-lhe uma finalidade de serviço à comunidade”. Para o espaço não ocupado pelo museu de arte sacra, o pároco propõe o seu aproveitamento para diversas funções, dando “vida ao edifício e movimento à própria praça”.

Convento “inutilmente mutilado”

Em 1905, Jaime de Magalhães Lima escreveu: “Pensa o governo em mutilar o convento das carmelitas de Aveiro, antigo paço ducal nesta cidade e uma das poucas relíquias das suas grandezas. A comissão dos monumentos nacionais, tendo conhecimento do facto, encarregou o senhor Ramalho Ortigão de examinar o assunto e apresentar o seu parecer. E esse parecer, que está aprovado por aquela corporação e ainda impresso, constitui não só a defesa do convento ameaçado, mas uma soberba lição sobre as obrigações da administração pública, enquanto lhe cumprir educar o sentimento cívico pelo respeito pelo passado e continuidade da tradição”.

No entanto, esse parecer de nada serviu, porque o desejo da autarquia aveirense, e do seu presidente de então, Gustavo Ferreira Pinto Basto, conseguiu concretizar o seu objectivo, e o convento (e também a igreja) foi mutilado, com a consequente demolição de parte considerável do imóvel conventual.

Sobre este assunto, no livro “Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Aveiro – Zona Sul”, publicado em 1959, A. Nogueira Gonçalves escreveu: “Convento e igreja foram inutilmente mutilados, para se regularizar uma praça e destacar a modesta arquitectura do edifício do poente (onde está o Governo Civil); eliminaram a ala norte daquele e todo o coro alto, o do fundo da igreja; certamente por simples acaso é que não abrangeram o topo da igreja com as suas belas talhas”.