Conversa de fim-de-semana

Educar… Hoje “Passei o fim-de-semana a conversar convosco.” – lançou o professor numa segunda-feira aos seus 25 alunos de 14 anos. A surpresa não invadiu apenas uns três ou quatro que tinham, efectivamente, falado com ele. Pensaram que sucedera o mesmo com os colegas – o messenger1 possibilitava-lhes o contacto directo com o prof. de Língua Portuguesa. Quando tinham uma dúvida em relação ao trabalho de casa, quando queriam esclarecer uma matéria para o teste, enfim, quando simplesmente o “viam on-line” e lhe desejavam “bom-dia!”, escreviam “Olá, stor!” e ele teclava-lhes uma reposta. Muitas vezes dizia-lhes que eram horas de dormir (pelo menos para ele…), papel subtil de pai que os alunos não levavam a mal. Dos três ou quatro nada surpreendidos com aquele anúncio “Passei o fim-de-semana a conversar convosco.”, um considerou exagerada a expressão, pois o prof. tinha falado com ele de viva voz – o messenger também oferecia essa possibilidade – para lhe esclarecer uma dúvida sobre gramática. Mas… tinham falado pouquíssimo. “Lá estava o stor a exagerar!” – pensou.

Todavia, para a turma intrigada, e para os que pensavam ter percebido a afirmação do início da semana de aulas, o professor rapidamente esclareceu: os 25 textos de auto-análise, auto-caracterização (ou qualquer outro título pomposo para as redacções que tinham redigido numa aula, sobre como se viam a si próprios, as suas aspirações e “ais”) não só tinham sido corrigidos a nível de língua, mas também tinham sido alvo de conselhos. Aquele prof. costumava dar-lhes várias sugestões, que nem todos recebiam com agrado. Às vezes, parecia que se estava a imiscuir na vida deles! Mas, desta vez, fazia algumas sugestões que lhes aumentaram a auto-estima. Em 25 composições escrevera uma palavra de incentivo.

A conversa daquele fim-de-semana continuou com alguns. Com os que reescreveram os textos, seguindo as sugestões. Continuou para aqueles que aproveitaram a oportunidade para se agarrarem à verdadeira amizade, reflec-tindo sobre as influências negativas e positivas que certos amigos tinham sobre eles. Continuou até aos 18 anos, quando no final do 12º ano disseram àquele professor que tinha sido muito importante o apontamento escrito num fim-de-semana, já longínquo, em que gastara horas e horas a conversar com eles.

A conversa daquele fim-de-semana continua com alguns, que encontram o professor na rua, passados muitos anos, e que lhe contam como lhes está a correr a vida profissional e familiar. E lhe perguntam se continua a passar fins-de-semana a conversar com os alunos. (A resposta adivinha-se.)

Em diferentes ocasiões, os pais e os encarregados de educação são chamados à Escola: vão conhecer os professores e os horários dos filhos; vão a uma entrevista marcada pelo Director de Turma ou pelo Conselho Executivo; solicitam encontro com o DT, com o Professor responsável pela turma, ou com o Psicólogo. Vão conhecer actividades desenvolvidas pelos seus educandos, e acompanham-nos em vistas de estudo. Também sucede receberem cartas, telefonemas ou emails. Quase todos têm telemóvel ou telefone, e só raramente não atendem as chamadas dos responsáveis pela vida escolar dos seus filhos.

Muitos reúnem-se em Associações de Pais e Encarregados de Educação, promovendo, em colaboração com as escolas, reuniões e debates.

Este modo de encarar a relação Escola / Família aponta para uma aproximação que é urgente cimentar. Talvez por isso se realize o debate sobre Educação e Cidadania – Qual o papel dos pais? na Escola Secundária Dr. Mário Sacramento, pelas 21h, no próximo dia 14 de Dezembro. Não falte!

1 Messenger – programa da Internet que permite a conversa em tempo real, através do computador.

A CIVITAS AVEIRO, com a colaboração da Escola Secundária c/ 3º CEB Dr. Mário Sacramento e da sua Associação de Pais e Encarregados de Educação, convida todos os interessados para o Debate Educação e Cidadania – Qual o papel dos pais? que se realiza a 14 de Dezembro de 2006, pelas 21h, na Biblioteca da Escola.

Como dinamizadores convidados, este debate conta com a presença de Júlio Pedrosa de Jesus, Liliana Sousa e António Neto Mendes.