Convicção ou confusão?

1 – Imagino que não seja convicção, mas confusão, pensarem os políticos que a “política” – a concepção e gestão da polis – só tem obrigação de considerar as áreas urbanas, nada tendo a ver com o rural, o campo ou a floresta. Às vezes ficamos com a impressão de que sim; mas queremos esconjurar esse “mau pensamento”, continuando a espevitar a esperança de que os eleitos se assumam como responsáveis de todo o território nacional.

2 – De facto, na verdade, parece que o campo e a floresta se tornaram fossilizações residuais do passado, acerca das quais apenas se deve pôr o problema do “impacto ambiental”… E, isso, sobretudo pelo respeito às espécies que estejam em vias de extinção – da fauna ou da flora – com excepção da espécie humana, que essa não tem lugar no rol. Desenha-se e gere-se (se é que se pensa ou gere!) o País reduzindo-o a grandes superfícies (como se aí nascessem as frutas, os legumes…), a metropolitanos (como se nos seus túneis se fabricassem recursos hídricos), a aeroportos (como se neles se criassem os bovinos, ovinos e as aves), a estruturas viárias, desportivas, casas de cultura (como se aí se produzisse o leite e seus derivados)…

3 – Sabemos que somos um povo com défice cultural e educativo assinaláveis. Mas não somos desprovidos de inteligência, senhor Primeiro Ministro. Podemos não perceber o que seja tecnicamente a situação de calamidade pública; mas sabemos o que é a dureza do sofrimento de quem fica sem nada com os incêndios, sem o fruto do trabalho de uma vida inteira! Podemos não saber quais sejam as condições técnicas para que a seca seja declarada inimigo público; mas sabemos o que é deixar de ter água nas torneiras, deixar de puder tomar um duche mesmo rápido, ver animais e plantas a morrer desidratados – o ganha-pão de muitos portugueses. Não nos chame ignorantes! Desça do seu pedestal, largue as suas férias, viva um ano – um ano apenas! – a condição de quantos não são da “polis”, mas do campo e da floresta!

4 – “O País está a arder. A culpa é de todos!” – Não é bem assim, senhor deputado. “Promova-se a limpeza coerciva das matas!” – Não é bem assim, senhor Presidente da República. Primeiro, porque, apesar de menos bem limpa, como regra a mata não se incendeia sozinha. Segundo, porque alguns – e não todos! – é que têm a responsabilidade de produzir um código penal que responsabilize os cidadãos, que eleve o nível de cidadania, em vez de promover um país de inimputáveis! Preocupem-se os magistrados, os areópagos da nação, em promover equitativamente a condição de todos os portugueses, em fazer crescer o Portugal total… E as coisas levarão, por certo, outros rumos.

5 – Voltando ao princípio: Se é por convicção que, para os políticos, a sua responsabilidade é só da “polis”, então inventemos novos políticos; se é por confusão, então esclareçam-se! E não nos chamem ignorantes, não nos responsabilizem por aquilo de que são os primeiros responsáveis, não nos ameacem. Sirvam o bem comum, promovam as competências, desencadeiem uma cultura da responsabilidade.