O Correio do Vouga recebeu há dias uma carta da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, assinada pelo Pe Nuno Filipe e dirigida aos jovens. Transcrevemo-la quase na totalidade.
«O nosso Instituto foi aprovado pela Igreja como Ordem Religiosa de Irmãos, para o serviço dos doentes e dos necessitados. Teve origem em Granada, Espanha, na segunda metade do século XVI, como continuação da actividade caritativa de S. João de Deus, que nasceu em Montemor-o-Novo (perto de Évora) e morreu na cidade de Granada, a 8 de Março de 1550. [Completam-se hoje 456 anos.]
(…) No nosso tempo [a ordem] encontra-se presente nos cinco continentes. O seu carisma é plenamente actual.
Esta informação é dirigida a ti, jovem, de um modo especial. (…) Desejava dialogar contigo, caro jovem, mormente no aspecto vocacional. Podes escrever-me para: Casa de Saúde de S. João de Deus – Caminho do Trapiche – Caixa Postal 4376, 9020-126 Funchal, Madeira. Pe Nuno Filipe, O. H.»
Louco da Caridade
Porque a publicação da carta coincide com o dia de S. João de Deus, 8 de Março, espreitámos um pouco a biografia deste santo da Igreja Católica.
Nasceu em Montemor-o-Novo, em 1495, e serviu como pastor em Toledo. Muito cedo pegou em armas e combateu franceses em Espanha e ajudou a construir muralhas em Ceuta. Regressou a Espanha e fez vida de vendedor de livros de romance em Sevilha e Granada.
Em 1537, João de Deus ouviu uma pregação de João de Ávila (S. João da Cruz) e foi “como uma tempestade de fogo e granizo” na sua alma. João de Deus destruiu os seus livros e correu como um louco pela cidade do sul de Espanha, que nessa altura estava cheia de pessoas que fugiam da fome em Castela, mouros perseguidos, soldados e feridos de guerra, enfim, pobres. João de Deus acaba, ele próprio, por ser encarcerado num manicómio (o termo está correcto, as pessoas eram encarceradas) e lá descobre o rosto crucificado de Jesus nos que estavam longe de tudo e de todos, nos loucos abandonados. As suas mãos alimentaram muitas bocas, lavaram muitos corpos, enterraram muitos mortos sem nome.
Um dia, porque convivia com bêbados e prostitutas, acusam-no ao arcebispo. João responde que só fazia o que o Senhor lhe pedia e que também Ele partilhara a sua mesa com essas mesmas pessoas. O arcebispo apoiou-o.
Ao funeral de João de Deus, em Granada, acorreu uma multidão nunca antes vista na cidade. Dizem os relatos que várias vezes foi necessário vestir o cadáver. O povo arrancava as suas roupas para ficar com uma relíquia de João de Deus, “louco da caridade”.
