“Somos embaixadores dos muito pobres”

Michel e Colette Gambiez pedem esmola, apanham restos do lixo, dormem em prédios abandonados ou em centros de acolhimento, passam de cidade em cidade, Paris, Lille, Bruxelas, Rouen… Vivem com os sem-abrigo como opção de vida. A sua atitude pode incomodar a consciência tranquila de muitos que ajudam o pobre como “um superior” ajuda “um inferior”.

“Embaixadores dos muito pobres”, este casal francês, ele de 59 anos, ex-franciscano, e ela de 48 anos, ex-enfermeira, vem dizer-nos que ao pobre falta principalmente o afecto, a palavra, o aperto de mão, coisas que não custam dinheiro. Custam humanidade. Daí que sejam muito mais raras. E sua falta mais exclusão provoque.

O casal veio a Portugal a promover o seu livro, editado com o apoio da Cáritas Portuguesa. De passagem por Aveiro, concedeu uma entrevista ao Correio do Vouga.

Correio do Vouga – Qual a grande lição destes anos de vida na rua?

Michel Collard – Mas nós continuamos a viver na rua! A grande lição é compreender que as pessoas que vivem na rua têm uma grande fome de presença humana, de serem ouvidos, de um olhar, uma atenção, um apreço. Estarem excluídas dessas dimensões é que as desvaloriza.

Vivem na rua há vários anos. A vossa acção sofreu evolução?

MC – O trabalho continua a ser o mesmo. Aproximamo-nos dessas pessoas, partilhando a noite e o dia, hoje tal como quando comecei, em 1983, e quando decidimos prosseguir os dois, em 1992. Não houve qualquer mudança.

Antes desta viagem a Portugal, em que cidade estavam?

Colette Gambiez – Estávamos em Lille, que é uma grande cidade no Norte da França. Regressámos lá, após um ano, e não encontrámos muitas das pessoas que conhecíamos. Alguns tinham falecido, outros tinham partido – não sabemos para onde – outros, felizmente, melhoraram a sua situação, ainda que muito fragilmente. Mas encontramos muitas pessoas novas. Na rua, hoje, há muitos imigrantes. Sei que acontece o mesmo em Portugal. Mas na França e na Bélgica a realidade é mais preocupante. Há ainda o fenómeno impressionante do crescimento de população jovem na rua.

Porque é que as pessoas caem nesse último degrau da hierarquia social?

MC – Efectivamente, temos a imagem de que “eles caem”. Mas muitos nunca estiveram em cima para cair. Nasceram na base da sociedade. Por isso, faltou-lhes tudo para se poderem construir como pessoas: o afecto, a educação, a escolaridade, o trabalho. Muitos destes elementos faltaram; por isso partiram para a vida muito diminuídos. Não se trata de uma queda, em sentido filosófico, na rua. O abatimento é extremo, de uma pobreza que está presente há muito tempo e, por vezes, que passa de geração em geração.

Qual é o vosso objectivo ao viver com os pobres? É ajudá-los?

CG – Em primeiro lugar e antes de tudo, tomar consciência que os pobres sofrem efectivamente pela não-existência e pelo não-reconhecimento. Através da nossa disponibilidade e escuta, queremos atenuar essa situação.

A outra dimensão é que, desde sempre, quando pensamos nos pobres, vemos as suas necessidades materiais – e está certo, porque é preciso atender a essas necessidades; mas por vezes só vemos isso e esquecemos as pessoas com todas as suas dimensões e aspirações. Nós decidimos estar disponíveis para as outras dimensões da vida humana, da vida deles. O nosso objectivo é aproximarmo-nos deles com doçura, é deixar que eles nos recebam, onde estão, de dia, de noite, na rua, sob o cartão, no metro, no centro de acolhimento. E são eles que tomam a iniciativa de nos acolher, de nos aceitar, porque fizemos a escolha de não ser interventivos. É em gratuidade total que nos encontramos. Permitimos aos muito pobres que possam dar qualquer coisa deles mesmos.

E o que receberam dos sem-abrigo?

MC – A escolha de pobreza em que estamos conduz a uma relação de tipo fraternal. Quando nos aproximamos deles, tecemos com eles ligações de fraternidade e amizade e nunca de ajuda de um superior a um inferior. Um pouco na linha de S. Francisco de Assis, queremos ir ao encontro de uma real fraternidade humana.

Eles, que nunca tiveram a experiência de dar amizade, dão-nos o presente da sua vida, do seu sofrimento, mas também a sua esperança. Eles lembram-nos que o mais importante da vida não é o trabalho, o saber, o poder, mas ter um nome, ter um rosto e ser pessoa.

Têm objectivos evangélicos?

CG – Não. O Evangelho e S. Francisco são figuras de referência para nós, mas nunca tivemos a intenção de estar entre os pobres para evangelizar. A nossa partilha de vida pode ser uma palavra de Evangelho, mas silencioso.

Depois desta experiência de vida, qual é a vossa visão da pobreza? Uma visão trágica, romântica?

CG – É preciso distinguir entre miséria e pobreza. Eu e o Michel fizemos uma escolha da pobreza, para viver esta fraternidade. Mas eles não escolheram. Foram conduzidos à miséria. A miséria não tem nada invejável, quer seja em Portugal, na França ou em qualquer parte do mundo. É preciso fazer tudo para a destruir. Não há nada de romântico. As pessoas que estão nas ruas estão em processos dramáticos de desumanização. O apelo é que estejamos atentos a todos aqueles e aquelas que estão nestes territórios marginais, excluídos e abandonados.

Há pessoas que deixam de ser sem-abrigo ou esse é um destino final?

CG – Há os dois casos. Alguns morrem na rua. Felizmente, outros, longamente acompanhados, são capazes de, pouco a pouco, passar a outra etapa de existência. Mas não se pode enunciar uma fórmula em termos de eficácia. As pessoas são tão marcadas que continuam frágeis. E podem entrar em novos processos de fragilização. Há saídas da rua, mas é difícil prever a longo prazo se vão regressar ou não à mesma situação.

O vosso estilo de vida, que passou a livro, é uma crítica à acção das instituições de caridade?

MC – Não propriamente uma crítica. Mas passámos a outra forma de agir e, portanto, deixámos a caridade, que muitas vezes assume características paternalistas. O critério que propomos é: o que oferecemos aos pobres como serviço é o que nós queremos para nós próprios? O que lhes damos para comer, vestir, dormir… Será que ficávamos felizes por receber isso?

Penso que convidamos a deixar o moralismo de dizer ao pobre o que deve fazer, de dar conselhos, de evitar juízos… O que propomos é fazer uma parceria. Em vez de os assistir eternamente, dar-lhes, por exemplo, oportunidade de falar, escutá-los, fazer festa com eles, ir ao cinema, conversar. Podemos restaurar outras necessidades humanas, porque a vida é muito mais do que comer, beber e dormir. Há mais que a dimensão biológica. Há a dimensão cultural. Alertamos os poderes públicos, as associações e os cidadãos para que tenhamos esta atitude fundamental: o pobre é verdadeiramente um irmão, um igual em humanidade e não alguém a quem devo dar uma lição, uma moral, uma pregação, uma esmola.

A vossa opção é radical. Não é para todas as pessoas. O que pode um cristão fazer pelos pobres…

MC – …sem fazer o que nós fazemos, claro.

CG – Creio que um cristão não se compreende sem olhar para o Evangelho e para o seguimento de Jesus, o qual fez uma escolha prioritária dos excluídos do seu tempo. Hoje, cada um é convidado a fazer essa mesma escolha. Os excluídos não são apenas os que andam na rua. São pessoas da sua própria família, deficientes, os abandonados nos lares e nos hospitais, as pessoas que morrem sós, os presos, os idosos. Há muita gente que sofre terrivelmente. Mais do que um convite, há a interpelação vigorosa a que os cristãos estejam presentes e vigilantes. Jamais tivemos a pretensão de gerar um grande número de pessoas que sejam como nós. Mas queremos deixar a cada um esta interpelação.

MC – Podem não assumir um compromisso tão profundo, mas, mesmo numa relação muito efémera com alguém com que me cruzo na rua, posso ter um olhar diferente. O olhar humano pode significar para o outro que é verdadeiramente uma pessoa, mesmo que ele não tenha comportamentos normais, ou esteja desfigurado… O cristão tem de olhar olhar para esta pessoa…

CG – …porque, como diz aquela bela frase da Bíblia: “Tu és valioso aos meus olhos e eu amo-te”. Isto é verdade para nós e para todos.

Pelo que viram em Portugal, a situação dos sem-abrigo é semelhante à de França?

CG – Não pudemos ter uma relação directa com os sem-abrigo, porque não falamos português. Mesmo com tradutor seria difícil. Pelo que nos disseram, em Lisboa, dorme muita gente ao relento, mais do que nas cidades que conhecemos, mas o fundo do problema é o mesmo.

São sempre bem aceites pelos sem-abrigo?

CG – Sim, de braços abertos. Aproximamo-nos com suavidade, nunca com qualquer violência. Eles sentem que procuramos uma relação de respeito.

No livro, descrevem uma situação em que um sem-abrigo critica a vossa limpeza…

MC – Nós estamos com eles como estamos consigo. Por irmos para a rua, não vamos começar a beber, ou a degradar-nos. Estamos com eles na diferença e é nesta diferença que as coisas têm importância. Eles sofrem por estarem fechados com eles mesmos. É importante que tenham alguém que lhes leve alguma qualidade de humanidade.

Além de “Quando o excluído se torna o eleito”, escreveram “Et si les pauvres nous humanisaient” (“E se os pobres nos humanizassem”). Desejam chegar a mais pessoas…

CG – Por um lado, queremos ser a voz dos nossos companheiros que não têm palavra, não são escutados. Somos embaixadores dos muito pobres. O livro traduzido em português foi feito a partir de notas escritas no nosso quotidiano, nos nossos pequenos cadernos. Tentamos transmitir a palavra recebida de cada uma dessas pessoas invisíveis.

Escreveram no livro traduzido que “ninguém é capaz de escolher a miséria”, mas vocês escolheram-na…

MC – Não escolhemos a miséria! Escolhemos encontrar as pessoas que sofrem a miséria. É diferente! Fazemos um caminho em direcção a eles e com eles vivemos fraternidade. Mas não escolhemos a miséria. Partilhamos, sim, as suas condições de existência.

A vossa atitude inspira-se na “kenosis” (aniquilamento, abaixa-mento) de Deus em Jesus Cristo? Ele, que era de condição divina, fez-se um de nós…

MC – Há qualquer coisa disso, mas muito modestamente.

CG – Falámos, há pouco, de passagem, do Evangelho, e é verdade que a Encarnação de Deus…

MC – …dá um impulso à nossa condição humana. Mas, ao mesmo tempo, há muita diferença.

CG – Não há uma identificação total com os pobres. Aliás, há rupturas que, precisamente, dão força a este encontro.

MC – Se estivéssemos na miséria como eles, seríamos apenas mais uns miseráveis. E eles não nos pedem que sejamos como eles. Estão contentes por estarmos com eles, mas não por causa da miséria; por causa do sinal de humanidade.