À Luz da Palavra – XIII Tempo Comum – Ano A As leituras deste domingo apresentam-nos uma reflexão sobre a virtude do acolhimento e dizem-nos que é o verdadeiro discípulo e discípula do Senhor quem é mais capaz de prestar este serviço. Parece tornar-se cada vez mais urgente a prática do acolhimento. Apesar do mundo se ter tornado numa aldeia global, onde costumes e procedimentos se igualam cada vez mais, e onde seria lógico surgir uma maior relação interpessoal, ao invés, cresce, a par disto, uma atitude de indiferença e frieza humana. O frenesi das coisas materiais e das múltiplas tarefas a realizar vulcanizam os indivíduos; o respeito devido à pessoa humana é relegado para segundo plano. Acentuam-se, do mesmo modo, as grandes assimetrias no tratamento dos dignitários/as e da gente comum.
O evangelho é uma catequese sobre o discipulado e o acolhimento. A este propósito, Mateus, partindo das palavras de Jesus, tece uma dura crítica aos maus costumes que se instalaram na sua comunidade. Há, na verdade, uma grande falta de acolhimento evangélico. Estimam-se os cristãos “eminentes” da comunidade e desprezam-se os “pequenos”. O excerto deste evangelho pretende pôr um ponto de ordem nesta situação. Com efeito, o que dignifica cada pessoa é o facto de ser pessoa. Todo o verdadeiro discípulo e discípula de Cristo que leva até às últimas conse-quências o seguimento do Mestre, amando-o acima de tudo e de todos, aceitando gostosamente os sofrimentos que lhe advêm deste seguimento e estando disposto a gastar e a perder a sua vida pela causa do Reino de Deus, acolhe indistintamente e com afeição todas as pessoas. A recompensa deste gesto há-de vir do próprio Senhor e não da retribuição humana de qualquer “eminente” por um serviço que usufruiu.
A primeira leitura mostra como todos podem praticar o acolhimento e colaborar, assim, na realização do projecto salvador de Deus. A “distinta senhora” de Sunam acolhia, ano após ano, o profeta Eliseu, por reconhecer nele um santo homem de Deus. E fazia-o gratuitamente, porque era distinta em sentimentos e atitudes. E porque o servo de Deus também soube acolher as necessidades desta senhora, ela recebeu de Deus a sua recompensa.
A segunda leitura recorda que o cristão e a cristã são alguém que, pelo baptismo, se identificam com Jesus. A partir daí, devem seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida, que passa pelo acolhimento mútuo, e renunciar definitivamente ao pecado. Todos os que somos baptizados em Cristo, recebemos uma vida nova, que nos faz viver para Deus, passando impreterivelmente pelos irmãos e irmãs. Importa, pois, que sejamos fiéis ao nosso baptismo, vivendo com intensidade a dimensão filial e fraternal que dele decorre. Um bom acolhimento é tão importante como todos os outros serviços paroquiais e é primordial em relação a eles. O mistério da encarnação diz-nos como a humanidade de Cristo é imprescindível para podermos participar na sua divindade. A tarefa e a responsabilidade da comunidade cristã, que a todos acolhe evangelicamente, são a melhor forma de quebrar o anonimato dos aglomerados habitacionais e a burocracia desumanizante das restantes instituições. Eis um repto às nossas programações pastorais do ano que se avizinha.
Domingo do XIII do Tempo Comum
2 Re 4,8-11.14-16a; Sl 89 (88); Rm 6,3-4.8-11; Mt 10,37-42
Deolinda Serralheiro
