Promoção da Paz e Comunidade Internacional na Gaudium et Spes “Cooperação” é a palavra-chave da Gaudium et Spes sobre a “A promoção da paz e a comunidade internacional”, último assunto abordado pelo documento do Vaticano II (assembleia dos bispos católicos para reformar a Igreja) que ajudou a Igreja a situar-se na comunidade humana de uma forma mais evangélica. Joaquim Franco, jornalista da SIC, convidado do ciclo “debates na actualidade”, sobre os quarenta anos da GS, considerou a cooperação como “um assumir da pluralidade na perspectiva de uma construção harmoniosa”.
Antes de realçar algumas frases da GS, o jornalista apresentou o “contexto do mundo em 1965”, algo que nem sempre é feito quando, em Igreja, se estudam documentos do passado (como se os documentos fossem desencarnados ou só constituídos por princípios eternos), e que ajudou os participantes do serão da última quinta-feira, na Galeria dos Morgados da Pedricosa, a notar como a GS esteve atenta ao tempo em que surgiu, mas, ao mesmo tempo, foi ultrapassada pelos acontecimentos.
Em 1965, “o ambiente social era marcado por liberdades emergentes e ditaduras sanguinárias”, afirmou o jornalista, dando vários exemplos: ditaduras de esquerda do lado de lá do Muro de Berlim, ditaduras de direita na América Latina (e na Península Ibérica), guerras coloniais e independências em África. Era um tempo de grande esperança, com a conquista do espaço, de grande medo, com a corrida ao armamento, e de grande sede de liberdade, com explosões raciais nos EUA, emancipação da mulher, contestação juvenil na Europa (que conduziria ao Maio de 68), e mesmo a proliferação de drogas. Ao mesmo tempo, a TV comercial dava os primeiros passos como meio de comunicação de massas…
Dinâmica da utopia
“Na Igreja vive-se a dinâmica da utopia”, e é neste contexto que “um bispo polaco de 42 anos e um padre alemão, de 35 anos, considerado ‘perigoso modernista’” participam num concílio optimista, refere Joaquim Franco, sem mencionar o nome do papa anterior e do actual.
Do Vaticano II sairia uma visão da comunidade internacional em que se refere a emergência do terrorismo e a persistência da guerra, mas onde as notas dominantes são a cooperação entre nações e a defesa de uma “autoridade pública mundial”. O jornalista da SIC nomeou, por isso, “algumas coisas que a GS não diz, porque não eram do seu tempo”: a importância do diálogo inter-religioso nas relações internacionais, devido à emergência do fundamentalismo religioso; a guerra defensiva (o documento fala de legítima defesa – o que não viola os pressupostos internacionais); o poder da economia na relação entre Estados; a influência dos meios de comunicação globais; ou as micro-culturas subjugadas pela cultura dominante.
O próximo encontro deste ciclo está marcado para 20 de Abril. José Manuel Moreira terá como tema “A vida Económico-Social”.
O poder do telecomando
A participação animada das três ou quatro dezenas de pessoas que têm estado nos “debates na actualidade” leva a que por vezes se fale de outros temas. No último dia, orientando o serão um jornalista televisivo, a pergunta “sagrada” não faltou: “Por que é que a televisão apresenta tanta violência? O que podemos fazer?” Joaquim Franco, esperando a questão, não hesitou: “O espectador tem o maior poder: o do telecomando. E às vezes não o usamos”. O jornalista da SIC reconheceu que “por vezes, não adianta desligar a tv, porque a criança já viu o que não queríamos”. Nesses casos, como noutros, é importante o sentido crítico, e é pela conversa sobre as imagens que se vêem que o sentido crítico se educa nas crianças.
“Somos ou não somos cristãos?”
Várias vezes Joaquim Franco lançou a questão “Somos ou não somos cristãos?” Uma delas, para falar da importância do amor, “expoente da relação”, “que ensina a perdoar” e a quebrar a indiferença do mundo actual, globalizado, em que é mais fácil saber o que se passa no outro lado do planeta do que conhecer o vizinho que mora no apartamento ao lado. “Pouco adianta conhecer a última encíclica [Deus é Amor], se somos indiferentes para o vizinho separado de nós por uma parede que se calhar é mais estreita do que esta encíclica”, afirma o jornalista apontando para o livro. Mais tarde, perante um comentário do público, de que não seremos assim tão cristãos, o jornalista, membro empenhado da comunidade paroquial da Amadora, chegou à curiosa formulação: “Se calhar, somos católicos não-cristãos”.
