Aquele que é e se sente interiormente livre é sempre corajoso na proposta e na defesa das pequenas e das grandes causas do bem e da verdade. Sem medo nem vergonha do que os outros possam pensar ou dizer. Quando se é livre, nem a pessoa se esconde, nem a palavra se retrai.
Foi com alguma emoção que ouvi o Papa dizer, frontalmente, ao ministro da Autoridade Nacional Palestina, na sua primeira visita ao Vaticano realizada há um mês: “O que necessita a Terra Santa é de reconciliação: perdão e não represálias; pontes e não muros.” Já o havia dito, em Dezembro, por motivo da construção do muro, uma triste ideia de Ariel Sharon, e voltou a repeti-lo agora, pedindo “ a todos os líderes da região, com a ajuda da comunidade internacional, que sigam o caminho do diálogo e das negociações, que é o único que conduz à paz duradoura”.
Não há garantia, haverá até pouca esperança, de que estas palavras cheguem à inteligência e ao coração de quem as possa fazer vida e as transforme em acção consequente. Mas estão ditas. O interlocutor ouviu-as e a comunicação social fê-las ecoar pelo mundo além. Os silêncios do medo ou da especulação interessada, esses é que ninguém os ouve.
João Paulo II é hoje, indiscutivelmente, a voz mais ouvida no mundo. Faz impressão ver uma pessoa tão fragilizada de saúde, mas que mantém tanta força interior, tanta lucidez e realismo na apreciação das situações mais complexas, tanto sentido de oportunidade para dizer a palavra clara e oportuna, que outros responsáveis não têm coragem de dizer.
Os interesses criados ou que se esperam geram laços que asfixiam. Vivemos num mundo cheio de gente cobarde e temerosa, que se resigna e abdica, com o olhar voltado para si e para os seus sonhos e que se vai tornando incapaz de fazer algum coisa que denuncie outro sentido que não seja o de ela própria. Gente que não faz história, nem deixa nada de válido atrás de si, no momento em que parte sem retorno.
É verdade que há e sempre haverá pessoas, sempre menos, que olham mais alto para receber luz, e olham em frente para estender, de imediato, a mão a quem precisa de ajuda e estímulo.
O egoísmo paralisa, o amor aos outros suscita vida. E o amor também se manifesta na palavra corajosa a quem precisa de a ouvir e na interpelação oportuna e directa àquele que, não raro, se esvai nas suas dúvidas e perplexidades, aguardando que uma qualquer pessoa livre lhe diga o que precisa, que nem sempre é o que deseja.
Todos temos laços escondidos que nos podem atar sempre mais. Todos temos capacidade para os desatar, ficando a alegria de uma maior libertação interior.
