Livro inventaria moinhos de Albergaria-a-Velha Com mais de meio milhar de páginas, o livro “Moinhos do concelho de Albergaria-a-Velha”, da autoria de Delfim Bismarck e Armando Carvalho Ferreira, faz não só o inventário dos 355 moinhos de que há memória na área daquele município, como é também uma obra de etnografia e sociologia
Correio do Vouga: Nesta obra, quantos moinhos foram inventariados?
Delfim Bismarck: Foram inventariados 355 moinhos, espalhados pelas oito freguesias do concelho de Albergaria-a-Velha, dos quais, apenas cerca de vinte ainda estão a moer. Todos os outros, ou já desapareceram por completo, ou restam ruínas ou até estão em relativo bom estado, mas já não laboram.
Esse inventário teve em conta os moinhos que já tinham desaparecido?
Exactamente. Todas as referências e toda a documentação histórica que falava de algum moinho foram estudadas. Tentámos fazer um inventário o mais completo possível.
Os moinhos que foram inventariados são de que tipo?
São quase, na sua totalidade, moinhos de água; mais concretamente, moinhos de rodízio. Dois ou três casos de azenhas e só um moinho de vento, em Angeja, que ainda lá está, mas desactivado.
No inventário foram incluídos os moinhos (tor-res) de armação para tirar água?
Não, porque isso não são moinhos, mas sistemas eóli-cos para retirar água dos poços, se bem que há moinhos de armação, com uma estrutura muito semelhante a esses en-genhos, e que serviam para moer cereal, dos quais há muito poucos na nossa região.
Atafonas e mós manuais também constaram do estu-do?
Atafonas, encontrámos referências a cinco, mas ne-nhuma resta, apenas só a memória de algumas.
O que o levou a fazer um trabalho desses?
Este trabalho é em co-autoria com Armando Carvalho e foi ele que me lançou o de-safio. Ele já era sócio da Sociedade Internacional de Molinologia. De início, eu estava convencido que iríamos encontrar cerca de trinta a cinquenta moinhos, que seria um trabalho relativa-mente rápido, para meio ano. Mas, quando fomos para o terreno, tendo por base as cartas topográficas militares e os registos matriciais antigos existentes na repartição de finanças, vimos que esse número seria muito superior. À medida que fomos fazendo o trabalho, o número de moi-nhos foi crescendo exponencialmente, até chegarmos a esse total de 355. Acresceu ainda o facto das margens dos rios estarem cobertas de silvas e outra vegetação, o que dificultou a passagem para os moinhos. Por tudo isso, foram precisos dois anos e meio para fazermos este trabalho.
Na região, está a surgir a tendência para estudar e preservar os moinhos. Já foram publicados livros sobre moinhos em Oliveira de Azeméis, Sever do Vouga e na Bairrada. Há algum motivo para esse interesse pelos moinhos?
Eu penso que sim. Primeiro, porque os moinhos, especialmente os de vento, fazem parte do imaginário de qualquer um de nós. Quanto ao aparecimento de trabalhos sobre os moinhos e à sua preservação, julgo que se deve ao facto de estarem a acabar os moleiros e dos moinhos estarem a desaparecer. Estamos na última fase possível para se fazer alguma recuperação. Ainda há meia dúzia de moleiros vivos que podem manter essa actividade e ajudar na recuperação de alguns moinhos. Daí o aparecimento, há alguns anos, em Oliveira do Bairro, de um trabalho de António Capão. Mais tarde, surgiu um trabalho sobre os moinhos do concelho de Sever do Vouga. No ano passado, um outro, em Oliveira de Azeméis, sobre o núcleo do rio Ul, e, agora, este trabalho, sobre os moinhos de Albergaria-a-Velha. Praticamente, todos os concelhos da região tiveram ou ainda têm moinhos, pelo que seria bom que cada concelho fizesse, pelo menos, um inventário. O que nós fizemos foi um inventário o mais exaustivo possível sobre os moinhos e as actividades relacionadas com os moinhos, de modo a ficar para o futuro um estudo sobre uma actividade que se vai extinguir, no máximo em vinte anos.
Neste trabalho também foram estudados os açudes, levadas e outras estruturas relacionadas com os moinhos?
Sim. Dos açudes e das levadas fizemos um estudo bastante ligeiro, mas fizemos um estudo mais aprofundado relacionado com os componentes dos moinhos, com as famílias dos moleiros, e também com os trajes, a gastronomia e uma série de modinhas relacionadas com a actividade moleira.
