Questões Sociais A crise financeira actual foi claramente anunciada, mas sem anúncios claros: depois da «grande guerra» 39-45, ocorreu o período designado por os «gloriosos trinta anos», caracterizados pelo crescimento económico e social, sobretudo nos países democráticos do Ocidente; esse período terminou nos anos setenta, devido a factores diversos, entre os quais se inserem os «choques petrolíferos» e, mais profundamente, a insustentabilidade do modelo económico e social; os trinta anos subsequentes podem caracterizar-se pelas incertezas do crescimento económico e pelo ascendente do poder financeiro. Nos primeiros trinta anos, prevaleceram, aparentemente, a social-democracia e a democracia cristã; nos últimos trinta, prevaleceram notoriamente a competitividade e as desigualdades sem limites.
A competitividade sem limites ocorreu em quase todos os domínios económico-sociais: entre «capital e trabalho»; entre sindicatos e organizações empregadoras; entre sindicatos com orientações diferentes; entre organizações empregadoras, também com diferentes orientações; entre «dirigentes e dirigidos», dentro das empresas e de outras organizações; entre empresas, entre trabalhadores; entre governos e oposições; entre países… Não tirámos as devidas ilações das tragédias totalitárias do século XX: os antagonismos prevalecem como outrora; o maniqueísmo «puro e duro» está bem presente em toda a parte; os fundamentalismos continuam a afirmar-se com todo o seu dogmatismo; em geral, as forças políticas e sociais não apresentam propostas credíveis, e opõem-se entre si como se fossem detentoras da verdade solucionadora de todos os problemas.
Sem pessimismo, podemos afirmar que as forças políticas e sociais dominantes estão preparadas para repetir as tragédias totalitárias do século passado, e para dar continuidade às modalidades de opressão e de concentração de riqueza e de rendimentos que marcaram todos os períodos históricos. Em termos previsionais, o que se pode afirmar é que prosseguirão os conflitos favoráveis aos vencedores poderosos, a par da incapacidade para a erradicação da pobreza, da exclusão e da opressão.
Entretanto, o potencial de esperança encontra-se em todas as organizações, partidos e movimentos que procuram em cada momento as soluções possíveis, sem perderem de vista os objectivos de longo prazo, a alcançar por vias pacíficas. Mas, fundamentalmente, encontra-se nas pessoas em geral, nos trabalhadores, nos empresários, nos trabalhadores-empresários e no sindicalismo de base que lutam diariamente pela subsistência e pela dignidade. Bom seria – e é indispensável – que as diferentes organizações, partidos e movimentos se centrassem cada vez mais nestas pessoas, particularmente nas mais pobres, e cada vez menos na destruição de adversários.
