A raiz de todas as desilusões, a causa de todos os céus pardacentos que oprimem a humanidade, é a crise de valores, é a recusa, pela pessoa humana, daqueles que são os fundamentos da sua essência e, por conseguinte, dos parâmetros da sua existência.
O primeiro desses valores é o reconhecer-se como ser em relação, em primeira e última instância com Aquele que é o Senhor da Vida. Dispensar-nos de uma relação com Deus, como se Ele fora um estranho ou inimigo, é perder a relação com a Vida. “A vida, no verdadeiro sentido, não a possui cada um em si próprio sozinho, nem mesmo por si só: aquela é uma relação. E a vida na sua totalidade é relação com Aquele que é a fonte da vida. Se estivermos em relação com Aquele que não morre, que é a própria Vida e o próprio Amor, então estamos na vida. Então, «vivemos»” (Bento XVI, SS 27). A esteira de relativização da vida, de crise face à vida, resulta desta crise de relação com o Absoluto.
O segundo é experimentar que a esperança, o desejo de felicidade, não é um horizonte individualista, só para mim. “A relação com Deus estabelece-se através da comunhão com Jesus – sozinhos e apenas com as nossas possibilidades não o conseguimos. Mas a relação com Jesus é uma relação com Aquele que Se entregou a Si próprio em resgate por todos nós (cf. 1Tim.2,6). O facto de estarmos em relação com Jesus Cristo envolve-nos no seu ser «para todos», fazendo disso o nosso modo de ser” (Bento XVI, SS 28). A raiz do egoísmo, fonte de todos os atritos, ganâncias e conflitos, só é possível extirpá-la na fonte da comunhão. Só a recriação da humanidade, em Jesus Cristo, torna consistente a solidariedade. “Cristo morreu por todos. Viver para Ele significa deixar-se envolver no Seu «ser para»” (Ibidem). “Não posso ser feliz contra e sem os demais” (Bento XVI, SS 31).
A esperança bíblica do reino de Deus foi substituída pela esperança do reino do ser humano. E é evidente que se têm gorado as sucessivas esperanças neste reino. Experimentamo-lo duramente, neste momento de crise à escala planetária. “Esta grande esperança só pode ser Deus… O Seu reino não é um além imaginário… o seu amor é a garantia de que existe aquilo que intuímos só vagamente e, contudo, no íntimo esperamos: a vida que é «verdadeiramente» vida” (Ibidem). O horizonte escatológico, de vida plena, não é alienação, mas dinamismo para promover sempre novos sinais da sua presença dinâmica na construção da história.
Vencida esta crise de valores, todas as crises serão etapas sadias de crescimento!
