Culto da morte ou da vida?

Celebramos Novembro! O cair da noite, as mais das vezes pardacento, confere tonalidades cinzentas à paisagem, que envolve e identifica o estado de espírito de muitas pessoas. Aquele que poderia ser motivo para iluminar o rosto e fazer brilhar os olhos de esperança, parece carregar ainda mais as vidas de tristeza. Cinzento é o tempo que faz; cinzentas se mostram as caras, que deveriam apresentar-se radiosas, de gente salva!

1 – Peregrinos sobre a terra, festejamos, logo no primeiro dia do mês, a certeza de que muitos, conhecidos nossos ou não, de agora como de sempre, responderam ao convite de Deus à santidade; percorreram o seu caminho num esforço alegre de O amar com todo o coração, transformando esse amor em dedicação ao próximo, nos compromissos familiares, profissionais, sociais, eclesiais, indiferentes a dificuldades e provações. Agora participam da vida em plenitude. A “comunhão dos santos”, que professamos na fé, garante-nos que a sua solicitude fraterna é um apoio a nós, que ainda estamos em caminho.

2 – Logo depois, digamos que invertemos as posições, para nos colocarmos nós em atitude de fraternal ajuda a quantos “nos precederam com o sinal da fé e dormem o sono da paz”. Na verdade, seguros de que a pedra do túmulo não é a última palavra sobre a nossa existência, de que “a vida não acaba, apenas se transforma”, apoiando-nos na fé, como resposta à ansiedade de vencer este mistério de silêncio, que é a morte, seguros na certeza da ressurreição de Cristo, exercitamos a mesma “comunhão de santos, orando por todos, unido-nos a todos, para além desse drama da morte. Se assim não fosse, seria vã toda a pregação e vazia a fé. Mas, porque Cristo ressuscitou, temos a certeza de que podemos todos caminhar para o abraço eterno e feliz com Deus. E rezamos, para que aqueles que foram antes de nós, experimentem essa felicidade.

3 – Aquilo que vivemos e fazemos nestes dias – a festa de Todos-os-Santos e a oração pelos Fiéis Defuntos – é um testemunho de esperança. Tudo ao invés do pardacento pessimismo que povoa o nosso Mundo. E nada melhor, para retomar o gosto pela vida, o entusiasmo para cultivar uma vida plena, para nós e para os outros, procurando os caminhos da nossa própria dignidade e ajudando a devolver a dignidade a todos e cada um – o núcleo dos esforços de evangelização a desenvolver nos nossos dias. O nosso Deus é um Deus de vivos! Em Jesus Cristo brilha a estatura plena do Homem. Trabalhar para que todos cresçam para essa estatura é o bem do Homem, é a glória de Deus!

Coloquemo-nos duas interrogações: Todo o aparato de velas e flores, que, nestes dias, povoam os nossos Cemitérios, é expressão desta esperança escatológica – de uma vida sem dor, sem limite, sem morte? É sincera e coerente a nossa afectuosa recordação, a nossa saudade… ou é uma infrutífera e repetida tentativa de mascararmos o que foi o nosso desprezo pela vida, pela vida daqueles cujos restos mortais pretendemos agora “honrar” assim?