Aqui há duas ou três décadas, era diminuta, entre nós, a sensibilidade ao respeito e à defesa que nos mereciam o ambiente ecológico em que se vivia e o património histórico e cultural, que nos fora legado por quem nos precedeu.
Foi grande, em muitos casos, por parte das populações e das diversas instituições, a depredação provocada, e pouca ou mesmo nula, a atenção que tais bens mereceram.
O Estado acordou para este problema. Multiplicam-se as leis e orientações, para que se remedeie, no possível, algum do mal feito antes, se previnam erros consequentes em relação ao presente e ao futuro, e se penalizem os desrespeitadores.
O processo foi-se, de facto, invertendo, a pouco e pouco, e ainda bem. Abundam as associações de defesa do ambiente e do património e as iniciativas de educação nas escolas, já a partir das crianças, para que tais bens se possam apreciar, respeitar e defender. Se são de todos, todos são chamados, à sua medida e capacidade, a promovê-los e a sentir-se responsáveis por eles. Passem alguns exageros, porque a causa é boa.
Antes de mais, este é um problema de educação e de cultura que, a nenhum momento se pode descurar. Tanto o individualismo como a ignorância, que lhes andam ligados, são males bastante generalizados e de cura difícil e morosa.
Parece-me, no entanto, ao sublinhar o apreço pelo esforço e cuidado que se notam neste campo, que é preciso sublinhar outros aspectos, referentes ao ambiente e ao património, que não aparecem ainda incluídos no seu âmbito ou que não têm sido atendidos, como é urgente que o sejam.
O ambiente respirável e saudável não se pode circunscrever só ao aspecto físico, mas envolve, também, aspectos éticos e morais. Neste campo, os focos poluidores multiplicam-se em cada dia; e não podem merecer mais atenção a favor da saúde, que não é apenas um bem-estar biológico, as lixeiras mal cheirosas e infectadas, que, por exemplo, alguns programas da televisão ou a linguagem suja que se vai ouvindo, em plena rua ou nos meios de transportes públicos, sem que se reaja ou se admita a reacção de quem pede e exige respeito por si e pelos outros.
O património não é apenas um conjunto de bens materiais, culturais e históricos, mas é, também, todo o acervo de valores e princípios, morais e éticos, que fazem parte da nossa civilização, cultura e história, aos quais não pode deixar de atender a convivência social diária e um processo educativo sério. São princípios e valores que, por ignorância ou ideologia, se espezinham e desprezam, dizendo-os “coisas do passado”. Mas, então, do que nos vem do passado, valem mais as pedras que as pessoas e os valores que dão suporte seguro de humanidade e dignidade às suas vidas e à vida em sociedade?
Uma sociedade humanizada e atenta ao bem comum, com todos os seus agentes mais responsáveis, não pode estar desatenta a quem destrói o ambiente humano e o património moral. Sem uma atenção consequente, não passará de uma sociedade farisaica e de interesses, onde as pessoas valem menos que as coisas e os princípios morais valem menos que as ideologias correntes. As ideologias, mesmo quando com validade respeitada e reconhecida, serão sempre discutíveis e relativizáveis. Jamais, em democracia, podem beneficiar de o que quer que seja que as torne dogmáticas e impositivas, como já está a acontecer, por inércia de uns e favor escandaloso de outros. É preciso despolitizar e retirar do campo ideológico a defesa do ambiente e do património. São bens de todos e não propriedade só de alguns. Sem isto, ambos serão, no seu verdadeiro âmbito, vítimas de soluções e conceitos, escandalosamente redutores.
