A conjuntura difícil que vivemos, que alargou em amplitude e profundidade as fronteiras da pobreza, desencadeou também iniciativas múltiplas de solidariedade, amenizando efetivamente a angústia e o desespero de muitas famílias.
Não sei, entretanto, se estamos no caminho de inversão da cultura do egoísmo e do consumismo. Aprender a repartir, a fazer verdadeira comunhão de vida e preocupações, aprender o hábito de seriar prioridades, dando primazia ao indispensável e eliminando todos os supérfluos, são artes difíceis, que exigem longo treino, que só resultam de uma libertação interior, de um espírito simples e humilde.
Essa cultura, que vai muito para além do âmbito dos bens materiais, desdobrando-se em inumeráveis atitudes de atenção, de disponibilidade, de proximidade, de apoio e incentivo, que dá pelo nome de caridade, tarda a fazer-se sentir, mesmo entre aqueles que deveriam espantar o mundo por esse exemplo de viver “num só coração e numa só alma”.
A resposta às campanhas é generosa e muitas dores se têm aliviado. É preciso o pão, é verdade. Temos de o encontrar e de o repartir! É fundamental gerar e repartir riqueza. Temos de reencontrar formas eficientes de produzir e repartir o que faz falta para uma vida digna, com condições de saúde, de habitação, de educação, de desenvolvimento integral! Mas isso não bastará para satisfazer os anseios mais profundos da pessoa humana: crescer pessoalmente, numa vida de inserção social, de relação humana harmoniosa, dignificante, sentir-se conhecida e reconhecida, respeitada e amada.
Esse é o grande desafio que nos lança o Bispo de Aveiro, em ano jubilar, para despoletar o culto do cuidado pelo outro. É que, com o coração transformado, ninguém ousará regatear o pão, a partilha, a entrega.
“Cruzamos caminhos de silêncios sofridos, com marcas de pés magoados pela vida. Vemos janelas corridas, que escondem rostos sem nome. Encontramos portas fechadas, que calam gente sem voz.
Quem visita leva luz a olhares tristes, solta sorrisos no rosto das crianças, senta-se à mesa de quem está só, abeira-se de quem sofre, caminha nas estradas da vida com gente ferida pela dor, faz que a fé e a alegria renasçam em famílias sem esperança.”
Sem desculpas nem atenuantes! Hoje é o dia! É o momento de sair de mim mesmo, para ir ao encontro de quem precisa de mim e de quem eu preciso também, para ser igual a mim mesmo: um ser em relação.
Com a clarividência que todos lhe reconhecemos, o Santo Padre aponta-nos o caminho da caridade como o percurso seguro de conversão na Quaresma que se aproxima. Em palavras simples mas contundentes, o Papa deixa-nos o rumo traçado: “A existência cristã consiste num contínuo subir ao monte do encontro com Deus e depois voltar a descer, trazendo o amor e a força que daí derivam, para servir os nossos irmãos e irmãs com o próprio amor de Deus”.
Este é o caminho longo, difícil mas gratificante, da cultura da caridade, o único capaz de consolidar uma sociedade de verdadeira partilha, de autêntica justiça social!
