Vive-se uma permanente tensão entre o que era e o que vem, o que uns chamam tradição e o que outros chamam evolução. Se se olha para trás, entra-se no rol dos conservadores; se se olha para a frente, conquista-se a dignidade de progressista.
A cultura de um povo significa o conjunto de sistemas de valores, de padrões, ancestrais, que desenharam a matriz desse povo, a “alma” desse povo. Ficar apenas nas raízes ancestrais, com o tempo, conduzirá o povo à extinção. A incorporação progressiva de novos valores, ao contrário, ampliará, aprofundará, consolidará a matriz original e transformar-se-á em mais valia, que proporcionará o crescimento e a projecção desse povo.
O que pode suceder, entretanto, é que concertos ideológicos, estratégia de grupos de pressão, gerem e imponham quadros e sistemas de valores que avassalem a alma do povo. E isto hoje é tanto mais possível quanto alguns têm meios eficazes de o conseguir. Refiro-me, obviamente, aos eficientes recursos “vendedores de opinião”, revestidos de uma capacidade de fascínio e uma inusitada – e falsa – áurea de verdade – os meios de comunicação social.
Cria-se, nessas circunstâncias, uma cápsula asfixiante, uma super-estrutura ideológica, que tenderá as destruir as raízes ancestrais das culturas, a desordenar os valores serena e legitimamente incorporados, deixando as culturas em estado de fatal imuno-deficiência adquirida (a sida cultural), sem qualquer hipótese de retorno, nem medicação de estabilização da doença.
É o risco que hoje corremos, é o fenómeno que hoje começamos a viver. A Europa, que deseja ser a Europa das nações, isto é, da diversidade enriquecedora de culturas, que permitiria mútua assimilação de valores, está submetida a essa cápsula asfixiante – laicismo, relativismo total, neutralidade moral e espiritual militante… -, verdadeira super-estrutura ideológica, difundida de maneira opressiva pelo poder, político e informativo, submisso a grupos de cuja força económica se não duvida.
A “alma” dos povos da Europa denuncia já a descaracterização crítica, fatal para a sua sobrevivência. E aí está a abertura às novas ditaduras, não necessariamente de fora. Os seus genes há muito que encontraram terreno fértil no seio das cobardias europeias, nos seus receios de serem apelidadas de conservadoras ou no gosto doentio de se endeusarem como progressistas.
Nunca como hoje se falou tanto e tanto se promoveu a “cultura”. Mas o que se promove é simplesmente a expressão simbólica. E, as mais das vezes, da confusão de sistemas de valores, desagregadora, em definitivo, das autênticas matrizes culturais. Porque, quando assim não é, a “alma dos povos” identifica-se e tonifica-se!
