
A prelatura de D. Manuel de Almeida Trindade na Diocese de Aveiro esteve balizada pelos dois mais recentes santos da Igreja Católica: João XXIII, que em 1962 o nomeou Bispo de Aveiro, e João Paulo II, que em 1987 lhe enviou uma elogiosa mensagem em carta autografada e, um ano mais tarde, aceitou a sua resignação. Textos de Cardoso Ferreira.
Como bispo emérito de Aveiro, D. Manuel de Almeida Trindade viveu o tempo suficiente para participar num encontro com os dois prelados que lhe sucederam: D. António Marcelino (então, também ele já bispo emérito) e D. António Francisco dos Santos.
Manuel de Almeida Trindade, que viria a ser o terceiro Bispo da Diocese de Aveiro após a restauração desta, nasceu no dia 20 de abril de 1918, na freguesia de Monsanto da Beira (que mais tarde viria a ser a “Aldeia mais portuguesa de Portugal), no concelho de Idanha-a-Nova, pertencente à diocese de Portalegre e Castelo Branco.
Ainda criança, foi com os pais, Daniel Ferreira da Trindade e de Gracinda Rodrigues de Almeida, para Avelãs de Cima, no concelho da Anadia, de onde os seus pais eram naturais.
Já no concelho de Anadia, frequentou a Escola Primária da Malaposta (1925 – 1929), ingressando, no ano de 1930, no Seminário de Coimbra. Entre 1934 e 1940, o então seminarista esteve em Roma (Itália), onde estudou Filosofia e depois Teologia na Universidade Pontifícia Gregoriana, onde se licenciou em Filosofia e obteve o bacharelato em Teologia.
Após o regresso a Portugal, no dia 21 de dezembro de 1940 foi ordenado presbítero na capela do Seminário da Sagrada Família, em Coimbra, pelo Bispo D. António Antunes, tendo celebrado a sua Missa Nova na igreja matriz de Arcos (Anadia).
Pouco tempo após a sua ordenação, foi nomeado membro da equipa formadora do Seminário Maior de Coimbra e, dois anos mais tarde, foi escolhido para assumir o cargo de vice-reitor desse Seminário, iniciando essas funções no dia 2 de novembro de 1941, passando a desempenhar o cargo de reitor entre o dia 2 de abril de 1957 e o ano de 1962.
De outubro de 1960 a junho de 1962, Manuel de Almeida Trindade regeu a cadeira de “Origens do Cristianismo” na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, instituição que o havia contratado como professor equiparado a catedrático.
Entretanto, no dia 16 de fevereiro de 1946, o bispo de Coimbra nomeou-o cónego da Sé de Coimbra. Em 1962, o papa Pio XII distinguiu Manuel de Almeida Trindade como seu prelado de honra, atribuindo-lhe o título de “monsenhor”.
Eleito Bispo de Aveiro
pelo Papa João XXIII
D. Domingos da Apresentação Fernandes, o segundo bispo da Diocese de Aveiro (após a sua restauração) faleceu no dia 21 de janeiro de 1962. No dia 16 de setembro de 1962, o monsenhor Manuel de Almeida Trindade foi eleito Bispo de Aveiro pelo Papa João XXIII, tomando posse canónica por procuração, no ministério pastoral da Diocese de Aveiro, no dia 8 de dezembro de 1962.
Foi ordenado Bispo na Sé Nova de Coimbra, no dia 16 de dezembro, por D. Ernesto Sena de Oliveira. Entrou solenemente na Diocese de Aveiro no dia 23 de dezembro de 1962.
Ainda como bispo eleito, D. Manuel de Almeida Trindade participou na primeira sessão do concílio que ficou para a histórica como Concílio Vaticano II, cuja inauguração ocorreu no dia 11 de outubro de 1962.
Entre os anos de 1970 e de 1987, D. Manuel de Almeida Trindade desempenhou diversos cargos e exerceu vários trabalhos na Conferência Episcopal Portuguesa, tendo sido delegado desta nos Sínodos dos Bispos realizadas em Roma, em outubro de 1967, em 1971 e em 1974. No dia 10 de abril de 1970 foi eleito vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.
No dia 30 de Setembro de 1975, o Papa Paulo VI nomeou D. Manuel de Almeida Trindade membro da Sagrada Congregação dos Sacramentos e Culto Divino.
Em 1979 e 1981, o Bispo de Aveiro foi escolhido para Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.
Em 1987, D. Manuel de Almeida Trindade recebeu uma mensagem particular do Papa João Paulo II, numa carta autógrafa do pontífice. Nesse mesmo ano, a Câmara Municipal de Aveiro deliberou por unanimidade atribuir a D. Manuel de Almeida Trindade a medalha de mérito em ouro e outorgar o seu nome a uma alameda da freguesia de Santa Joana. Em 1988, a Universidade de Aveiro nomeou-o Doutor Honoris Causa.
No dia 20 de janeiro de 1988, e apesar de ainda só ter 69 anos de idade, o Papa João Paulo II deferiu favoravelmente o pedido de resignação de D. Manuel de Almeida Trindade. Passado algum tempo, regressou ao Seminário de Coimbra, onde descreveu diversos livros, entre os quais “Memórias de um Bispo”.
No dia 5 de agosto de 2008, D. Manuel de Almeida Trindade faleceu nos Hospitais da Universidade de Coimbra. As suas exéquias foram celebradas na Sé de Aveiro, tendo sido sepultado no jazigo da Diocese, no Cemitério Central de Aveiro.
O Bispo que liderou a CEP em abril de 1974
Num artigo publicado no jornal “Público”, em 8 de agosto de 1988, António Marujo recordava que “foi Manuel de Almeida Trindade quem se destacou entre os seus pares, presidindo aos destinos da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) na transição entre os cardeais Manuel Gonçalves Cerejeira e António Ribeiro. Era ele o presidente da CEP a 25 de Abril de 1974”. E foi ele que, liderando a manifestação dos cristãos aveirenses, no dia 13 de julho de 1975, fez fente ao gonçalvismo, no “Verão quente”.
No artigo, o jornalista caracterizava o Bispo Emérito de Aveiro, falecido uns dias antes, como sendo “vincadamente culto”. Foi dos poucos bispos portugueses a alimentar o gosto pela escrita e pelas memórias – autobiográficas ou retratando pessoas e acontecimentos. Era também o último dos bispos portugueses ainda vivos a ter participado nas quatro sessões do Concílio Vaticano II (1962-65)”, escreve o jornalista de origens aveirenses .
Um aveirense que veio para ficar
Apesar de D. Manuel de Almeida Trindade ter passado grande parte das duas últimas décadas da sua vida em Coimbra, então já como Bispo Emérito de Aveiro, foi a “cidade dos canais” que escolheu para a sua última morada terrena.
Isso mesmo referiu Monsenhor João Gonçalves, que o acompanhou e secretariou durante o seu bispado, ao dizer que “como uma das últimas disposições, D. Manuel pediu que o seu cadáver fosse trasladado de Coimbra para Aveiro”. “Na sua entrada em Aveiro, D. Manuel já havia dito publicamente que vinha para ficar; quando pediu a resignação, numa conversa que manteve comigo, afirmou-me que finalmente resolvera ir para Coimbra, mas queria regressar depois da morte, para permanecer entre os aveirenses e ser acarinhado por eles”, revela Mons. João Gonçalves Gaspar.
