Bispo de Aveiro de 1962 a 1988 “Governar é uma palavra pomposa, tirada do vocabulário profano. O Evangelho tem uma expressão mais exacta para designar a acção pastoral e o espírito com que ela deve ser exercida. Essa palavra é: servir”.
O autor destas palavras, D. Manuel de Almeida Trindade, serviu a diocese de Aveiro de 1962 a 1988. Quando chegou à cidade da Ria, havia quem dissesse que “não vinha para ficar”, como o próprio recorda no livro “Memórias de um Bispo”. Ficou um quarto de século, até regressar ao Seminário de Coimbra, a sua “tebaida” (referência a Tebas, no Egipto, enquanto lugar de solidão e retiro), onde vive.
A diocese de Aveiro, aos olhos de muitos, não parecia digna de merecer aquele que estudara em Roma ainda antes de ser ordenado padre, fora designado Reitor do Seminário de Coimbra aos 25 anos, era assistente da Acção Católica, leccionava na Universidade de Coimbra a cadeira “Origens do Cristianismo” e tinha vários títulos publicados, entre os quais o livro “O Padre Luís Lopes de Melo e a sua época (1885-1951)”, que lhe valera o prémio do Secretariado Nacional da Informação em 1960 (15 contos!). (Uma curiosidade: D. Manuel é o autor do artigo “Bispo”, da Enciclopédia Verbo.)
Aveiro nos caminhos
da Providência
Com raízes familiares de Avelãs de Cima e Avelãs de Caminho (Anadia), Manuel de Almeida Trindade nasceu (20-04-1918) e viveu os três primeiros anos em Monsanto da Beira, para onde o seu pai se deslocara ao serviço dos Marqueses da Graciosa. Cresceu em Famalicão (Anadia) e entrou no Seminário de Coimbra em 1930, onde teve como professor de Português e padrinho do Crisma o Padre Américo. Quando a diocese foi restaurada, em 1938, escolheu Coimbra. Conta D. Manuel nas “Memórias”: “(…) A mim, a estudar em Roma a expensas da Diocese de Coimbra, foi-me dada a faculdade de optar. Apesar de pressões em contrário, optei por Coimbra. Soube mais tarde que, entre os dois bispos (o de Aveiro e o de Coimbra), houve negociações. Fiquei muito envaidecido (não era para menos!) quando me disseram que eu (um jovem estudante de 20 anos) tinha sido trocado pelo Cónego Maio, que, pertencendo, de facto à Diocese de Coimbra, fora incardinado na Diocese de Aveiro. Mas eu imaginava que um dia havia de pagar o meu tributo à Diocese de Aveiro. Caminhos da Providência!”
Esse dia chega a 16 de Setembro de 1962, quando é escolhido para Aveiro por João XXIII, que o apresenta como “sacerdote de verdadeira e sólida piedade, e de invulgar talento e experiência, que no exercício de outros cargos tem granjeado grandes merecimentos”. No dia 8 de Dezembro, “toma posse” por procuração, a 16 desse mês é sagrado bispo na Sé Nova de Coimbra e a 23 dá entrada em Aveiro. Dizem as crónicas dessa tarde que foi recebido em “apoteose e deslumbramento”, com um cortejo automóvel desde os limites da diocese (Tamengos) até à Sé de Aveiro, passando pelos Paços do Concelho. “Um dia inesquecível. Aveiro caprichou em receber-me festivamente”, escreveu D. Manuel.
Em Aveiro, D. Manuel viveu uma “lua de mel” (felicitações, visitas de cortesia e afecto…) até ter de enfrentar o primeiro problema, como relata nas “Memórias de um Bispo”. Esse problema, que já “consumira” D. Domingos, mas que acabou por ser resolvido a bem de todos, foi a construção da Igreja de Nossa Senhora de Fátima e a constituição da paróquia com o mesmo nome, nos lugares de Póvoa do Valado e Mamodeiro, que pertenciam a Requeixo.
Seguindo as “Memórias de um Bispo”, autobiografia publicada em 1993, podemos constatar aquilo a que D. Manuel deu valor na sua acção pastoral na Diocese. Os “meus padres”, por quem confessa ter chorado algumas vezes, ocupam lugar de destaque, mas também a valorização dos leigos e dos padres, para quem constrói a Casa Diocesana, realizando um sonho que o acompanhava desde o retiro espiritual em que se preparou para o episcopado. Na parte final do seu ministério, ainda sem edifício, foi constituído o Centro Universitário Fé e Cultura, destinado à pastoral universitária, com alguma inspiração no célebre CADC de Coimbra, e criada a Fundação D. Manuel de Almeida Trindade, para apoiar economicamente a formação de agentes pastorais.
Os seminaristas e o seminário estavam igualmente no coração do D. Manuel. “O Seminário é, como diz o Concílio (e já se dizia antes dele) o coração de uma diocese. Assim o considerei sempre”, afirma D. Manuel, que visita regularmente os seminários menores de Calvão e Aveiro e os maiores de Lisboa, Sintra, Porto e Coimbra, ou então escreve-lhes cartas, por não poder ir todas as vezes que queria (algumas delas transcritas nas “Memórias”). No último ano de serviço, D. Manuel chega mesmo a assumir uma aula no Seminário de Aveiro. Os alunos do 11º ano, entre os quais se encontrava o autor destas linhas, sentiam-se privilegiados. A delicadeza e afabilidade de D. Manuel, a par da sua visão privilegiada do interior da Igreja, faziam da aula semanal um momento muito ansiado.
D. Manuel valorizou a renovação dos templos ou a construção de novos edifícios, reconhecendo, com humildade: “Alguns párocos quiseram ter a gentileza de deixar o meu nome gravado em lápide na parte interior ou no exterior do templo, do salão ou da obra social. Mas tal referência é apenas histórica. Os nomes que lá deveriam estar eram os daqueles que conceberam a obra, os dos que conseguiram os meios para erguer esses edifícios e, muitas vezes, com as próprias mãos, carrearam pedras e cimento: os dos párocos e do povo cristão daquela freguesia”.
No seu tempo, de raiz, foram construídas as igrejas paroquiais de Barrô, Bustos, Calvão, Dornelas, Gafanha da Boa Hora, Gafanha do Carmo, Nossa Senhora de Fátima, Ouca, Palhaça, Paradela do Vouga, Ribeira de Fráguas, Santa Catarina, Santa Joana, Santo André de Vagos, S. António de Vagos, S. Bernardo e Torreira.
Por último, neste simples artigo que, mesmo que quisesse, não conseguiria ser exaustivo sobre a acção de D. Manuel, refiram-se as centenas de visitas pastorais que fez. A seguinte citação revela bem o valor que lhes atribuía. “Uma das obrigações do bispo é a visita pastoral às freguesias. É uma obrigação; mas devo dizer que era aquela em que eu me sentia mais pastor das almas e que mais alegria me dava, embora regressasse a casa muitas vezes extremamente cansado”.
O Sucessor
Na hora da despedida da diocese, para regressar à sua amada Coimbra, ao Seminário, D. Manuel afirmou: “Toda a gente sabe a razão porque pedi à Santa Sé quem viesse partilhar comigo, a nível episcopal, os trabalhos pastorais. Sem o haver procurado, cedo me vi chamado a ter de repartir o meu tempo e as minhas forças em trabalhos que ultrapassavam os limites da Diocese. Dessa circunstância – estou certo disso, beneficiou a diocese de Aveiro, porque passou a ter um reforço do carisma episcopal, primeiro em D. António dos Santos (…) [que viria a ser Bispo da Guarda] e, depois, em D. António Marcelino, um homem generoso, inteligente, dinâmico, que trazia atrás de si uma experiência e um saber que lhe granjearam o merecido prestígio que tem dentro e fora das fronteiras da Diocese de Aveiro. Dou graças a Deus por estes preciosos cireneus com os quais muito aprendi”.
Realizando funções da mais alta responsabilidade
No período em que é Bispo de Aveiro, D. Manuel Trindade desempenha missões de alta responsabilidade na Conferência Episcopal Portuguesa, de que é presidente [1972-75; 1981-87] e vice-presidente [1970-72; 1975-81; ] durante dezoito anos; no Colégio Pontifício Português, em Roma, onde exerce as funções de delegado desta Conferência; na Sagrada Congregação dos Sacramentos e do Culto Divino, da qual é nomeado membro a 30 de Setembro de 1975, e em várias Comissões Episcopais (a do Clero e Seminários em 1968, a da liturgia, em 1981 e a da Doutrina da Fé, em 1987).
Participa em Sínodo dos Bispos; no de 1967, que debate a colegialidade; no de 1971, dedicado ao sacerdócio ministerial à è justiça no mundo; no de 1974, que trata da evangelização; e no Sínodo Extraordinário de 1985, que tem a finalidade de celebrar, verificar e promover o Vaticano II.
In “Acção Pastoral da Diocese de Aveiro”, de Georgino Rocha
Principais datas
1918 (20 de Abril) – Nasce Manuel de Almeida Trindade, filho de Daniel Ferreira Trindade e de Gracinda Rodrigues de Almeida.
1934-40 – Em Roma, estuda na Universidade Gregoriana
1940 (21 de Dezembro) – É ordenado padre por D. António Antunes, no Salão de S. Tomás, no Seminário de Coimbra, e nomeado Reitor no ano seguinte
1960 – O Ministério da Educação nomeia-o professor da Universidade de Coimbra
1962 – D. Manuel é eleito Bispo de Aveiro. Participa em todas as sessões do II Concílio do Vaticano (1962-65)
1972 – É eleito, pela primeira vez, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa
1975 – (13 de Julho) A pretexto do assalto ao Patriarcado e da ocupação da Rádio Renascença, durante o PREC, D. Manuel lidera a “Manifestação dos Cristãos de Aveiro”, que depois repete-se em Viseu, Bragança, Coimbra, Leiria e Braga. O governo de Vasco Gonçalves cairia em Agosto deste ano
1976-80 – D. António dos Santos é Bispo Auxiliar (de 1980, e até 2005, será bispo residencial da Guarda)
1981-88 – D. António Marcelino é Bispo Coadjutor de Aveiro
1985 – Inauguração da Casa Diocesana
1987 – Instituição do Centro Universitário Fé e Cultura (que já existia há vários anos enquanto grupo de estudantes e professores católicos)
1987-88 – Celebração das Bodas de Prata Episcopais de D. Manuel de Almeida Trindade e das Festas Jubilares da Restauração da Diocese. Fundação D. Manuel de Almeida Trindade
1988 – D. Manuel “regressa” ao Seminário de Coimbra, onde vive actualmente
1988 (15 de Setembro) – A Universidade de Aveiro distingue D. Manuel com o título de Doutor “Honoris Causa”.
